Videoclipe: A Desumanização, por Valter Hugo Mãe interpretado por Márcia, Camané e Dead Combo

Videoclipe: A desumanização

No filme “O Sentido da Vida”, de Miguel Gonçalves Mendes, sete compositores foram convidados para elaborar temas que reflitam as mundividências de cada um dos sete personagens, para que funcione ao longo do documentário como uma espécie de coro de tragédia grega que faz progredir a narrativa. Todos os temas partem das entrevistas preparatórias que o realizador fez a cada um dos personagens.

Para o escritor Valter Hugo Mãe e o seu poema “Contabilidade”, Márcia, autora do álbum “Casulo”, foi convidada para construir um tema com uma melodia cuidadosamente preparada e interpretada pelos Dead Combo, banda formada por Pedro Gonçalves e Tó Trips, conhecidos sobretudo pelas suas músicas que misturam influências do fado e do rock, trilhas sonoras de westerns e temas regionais da América do Sul e África. A Márcia e aos DeadCombo junta-se também o fadista Camané, uma das principais vozes do fado em Portugal.

POEMA CONTABILIDADE

venho para te cortar os
dedos em moedas pequenas e
com elas pagar ao coração o
mal que me fizeste

*

o pior amor é este, o que já é
feito de ódio também. o pior amor
é este, o que já é feito de ódio também,
o pior é o amor é este, o que
já é feito de ódio também

Valter Hugo Mãe

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A Desumanização, de Valter Hugo Mãe

Reunião: 10 novembro 2017

O romance de Valter Hugo Mãe é uma verdadeira declaração de amor à Islândia.

Há na beleza feroz da paisagem islandesa algo de desolação, de abandono, de inevitável solidão. E isso transmite-se sem fim a quem nela vive. Resta aprender a viver com isso, aprender a transformar a escuridão em paciente espera, as crateras fumegantes em entranhas de dragões antigos, as enormes montanhas de gelo em gigantes que olham por nós, os rios indomáveis em serpentes benignas, os prados queimados pelo gelo e pelo vento em charnecas floridas onde pastam ovelhas, e tratar os negros abismos como se fossem as bocas silenciosas de deuses. Há que saber que, naquela ilha, a água, a pedra, o vento e o fogo são habitados por forças vitais. E é mesmo assim que tudo isto surge no mais recente romance de Valter Hugo Mãe (n. 1971), A Desumanização, cuja acção tem lugar na Islândia. O autor conseguiu passar para a escrita, com uma notável e singular sensibilidade poética, o avassalamento provocado por aquela paisagem geologicamente igual à dos “dias do começo do mundo”. Uma personagem, explicando a Islândia à filha, diz: “Não te aproximes demasiado das águas, podem ter braços que te puxem para que morras afogada. Não subas demasiado alto, podem vir pés no vento que te queiram fazer cair. Não cobices demasiado o sol no Verão, pode haver fogo na luz que te queime os olhos. Não te enganes com toda a neve, podem ser ursos deitados à espera de comer. Tudo na Islândia pensa. Sem pensar, nada tem provimento aqui.”


Valter Hugo Mãe deu novas roupagens a elementos da mitologia nórdica, fundindo-os com outros de carácter contemporâneo. Numa atmosfera dominada pelos elementos, ferozes e por vezes opressivos, de uma natureza não subjugada pelo homem, tão característica de um tempo que apesar de actual nos remete sempre para a memória lírica do mito, para um tempo dominado por uma sombria solidão, o autor ergue uma história de amor e de redenção numa aldeia perdida num fiorde no Noroeste da ilha.


O lugar são duas dezenas de casas e a igreja, um sítio onde parece que tudo foi negado aos seus habitantes, menos o amargo sofrimento. Halldora é a irmã “menos morta” de duas gémeas (Sigridur está enterrada). Vive com os pais, um pescador e uma mãe perturbada que se corta na pele para que essa dor faça esquecer outras mais profundas. Einar é o “tolo” da aldeia, vive num quarto na igreja (arranjado por outro homem que “havia anos o tentavam domesticar”); lembra-se ainda de quando era como os outros rapazes, mas isso foi antes de um estranho acidente acontecido com o pai. Na inocência da infância de Halldora nasce o amor desta por Einar — que se torna no fio condutor da narrativa. Há ainda mais duas ou três personagens que, à vez, vão contribuindo para manter a acção viva até ao epílogo.


Valter Hugo Mãe faz um sábio uso da cultura islandesa — não apenas da sua enorme tradição literária épica — ao integrar no romance, com grande mestria, referências à culinária tradicional, à pintura (sobretudo à obra de Jóhann Sveinsson Kjarval) e à música (é subtil a evocação dos hinos religiosos compostos por Hallgrímur Pétursson, poeta do século XVII); no campo literário é sobretudo notória, mais do que qualquer outra, a influência do “sopro poético” de Thor Vilhjálmsson (Arde o Musgo Cinzento, Cavalo de Ferro, 2012), o seu gosto pela prosopopeia, a sua maneira tão singular de descrever como o homem islandês se relaciona com as forças da natureza, primordiais e misteriosas, “como um veleiro que se move entre as costas do mito”, usando as palavras do poeta Ted Hughes. “Contava-se que, num tempo inicial, voavam dragões famintos que devoravam tudo quanto lhes adoçasse as entranhas zangadas. Contava-se que, devastadas as coisas todas, os dragões haviam perdido a capacidade de voar e haviam parado exaustos um pouco por toda a parte. Arfavam e empederniam. Dizia-se que, de tão grandes e espessas peles, haviam radicado como montanhas de boca aberta.”


Todo o romance é atravessado pela presença de deus, que se revela sempre através da beleza da poesia ou da natureza. Não é o Deus de nenhuma das religiões monoteístas (apesar de algumas referências à Igreja), mas uma estranha combinação entre animismo e as ideias de Espinosa. É o deus silencioso que vive nas coisas, que só fala através da poesia; o homem é apenas a “carne do poema”, um ser sempre à espera do fim, na desolação da sua existência, porque “tudo na vida tem a ver com a morte”.


Em A Desumanização — que é, provavelmente, o melhor romance de Valter Hugo Mãe —, a linguagem, a maior virtude do livro, é cuidada e alegórica, onírica e consistente, sem se deixar cair em exageros desnecessários que, do ponto de vista estético, poderiam estragar o conjunto. As personagens, tão típicas do universo literário do autor (enjeitados, desvalidos ou diminuídos aos olhos da sociedade), abandonam desta vez alguma da sua bondade para, por fim, experimentarem uma verdadeira epifania.

(https://www.publico.pt/2013/09/18/culturaipsilon/critica/a-boca-silenciosa-de-deus-1658456)

Pepetela

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) nasceu em Benguela, a 29 de Outubro de 1941. Fez os seus estudos primários e secundários em Benguela e Lubango, partindo em 1958, para Lisboa para fazer o curso superior. Frequentou o Instituto Superior Técnico, tendo nessa altura participado em actividades literárias e políticas na Casa dos Estudantes do Império. Por razões políticas em 1962, saiu de Portugal para Paris, França, onde passou seis meses, seguindo para a Argélia, onde se licenciou em Sociologia e trabalhou na representação do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e no centro de Estudos Angolanos, que ajudou a criar.

“Quando regresso a Benguela, tenho sempre a sensação de reentrar no ventre materno. Começa pelo ar. Cada terra tem o seu ar, com consistência própria e sobretudo cheiros particulares. Sinto isso ao chegar, sendo mais acentuado se a viagem é feita de avião, em que não há etapas de transição para adaptação dos sentidos às mudanças… Depois há a cidade e as gentes.” Palavras de Pepetela sobre a sua cidade natal.

Em 1969 parte para a região de Cabinda participando directamente na luta armada como guerrilheiro e como responsável pelo sector da educação. Adoptou o nome de guerra de Pepetela, que significa pestana na língua Umbundo, e que mais tarde viria a utilizar como pseudónimo literário. Em 1972 é transferido para a Frente Leste desempenhando as mesmas funções até 1974. Integrou a primeira delegação do MPLA que chegou a Luanda em Novembro de 1974.

Desempenhou os cargos de Director de Departamento de Educação e Cultura e do Departamento de Orientação Política. Foi membro do Estado Maior da Frente Centro. De 1975 a 1982 foi vice-ministro da Educação, passando posteriormente a leccionar sociologia na Universidade de Luanda.

“A terra que a boca de Alexandre Semedo morde lhe sabe bem. É o cheiro do barro molhado pelo orvalho de madrugada e o som longínquo de badalos de vacas na vastidão do Mundo. Leva esse sabor o cheiro da terra molhada para cima da pitangueira, onde fica a baloiçar para sempre.” In: Pepetela. Yaka. 1985, p.395.

É membro fundador da União dos Escritores Angolanos. Grande parte da sua obra literária foi publicada após a independência de Angola, sendo alvo de inúmeros estudos em várias universidades e instituições de ensino em Angola e noutros países. As suas obras foram publicadas em Angola, Portugal, Brasil, além de estarem traduzidas em quinze línguas.

“É a escrita mestiça de um dos maiores nomes da literatura africana, de um dos melhores criadores de expressão portuguesa. Uma escrita grande na beleza estética, imensa no sentido comunicacional, cuidada na forma rigorosa, contida, e libertadora numa sempre renovada proposta-activa de fazer do pensamento, hoje, a arma principal contra todas as moléstias sociais, políticas e culturais. Guerrilheiro que foi, Pepetela sabe definir os tempos e as circunstâncias. Por isso mesmo, guerrilheiro continua, guerrilheiro, todavia, que usa as palavras para um combate que tem de travar-se nos campos do conhecimento e da reflexão.” In: Maria Augusta Silva, Diário de Notícias.

Foi galardoado com os seguintes prémios: Prémio Nacional de Literatura (1980) pelo livro “Mayombe”; Prémio Nacional de Literatura (1985) pelo livro “Yaka” Prémio Especial dos Críticos de São Paulo (1993 – Brasil) pela obra “A Geração da Utopia”; Prémio Camões (1997) pelo conjunto da sua obra; Prémio Prinz Claus (1999) pelo conjunto da sua obra.

http://www.ueangola.com/bio-quem/item/53-pepetela

O planalto e a estepe, Pepetela

Reunião: 3 outubro 2017

Os olhos dele continham o céu do Planalto,
Na Huíla, Serra da Chela, Dezembro, quando o azul mais fere.
Nos olhos dela estavam gravadas suaves ondulações da Estepe
mongol. Tons sobre o castanho.
Entremo
s primeiro no azul.

A minha vida se resume a uma larga e sinuosa curva para o amor”, assim começa a viagem do livro. Na infância prodigiosa na Huíla, um protagonista angolano de nome Júlio, branco e de olhos azuis, descendente de colonos madeirenses, começa a aperceber-se das estranhas categorias que sustentavam as mentalidades do tempo colonial. De como, onde ele via apenas pessoas, amigos, sem distinção de cor, as questões raciais eram predominantes. Assim como a diferença entre colono e colonialista evidenciada nos “que querem que os africanos sejam sempre inferiores, sem direitos de gente na sua própria terra.” Bom aluno, prossegue estudos para “doutor” numa Coimbra húmida e aborrecida. É-lhe atribuída posteriormente uma bolsa para Moscovo onde estuda economia lutando pela “emancipação dos povos do mundo”, imbuído no espírito de solidariedade afro-asiática, internacionalista e anti-imperialista, fortalecendo amizades entre camaradas africanos, na projeção de um mundo socialista e uma Angola livre.

É quando cai perdido de amores por uma estudante mongol, Sarangerel, filha do Ministro da Defesa da República da Mongólia, cuja vida é vigiada por uma suposta colega que informa o severo pai com relatórios pormenorizados, que os problemas iniciam. O regime tem rigorosas normas que impossibilitam relacionamentos com estrangeiros, quanto mais sendo o caso de um africano provindo de um país colonizado. No entanto, a rapariga engravida e o casal acha-se numa tal complicação, lutando em vão por todos os meios para poderem ficar juntos.

Na sequência de uma passagem por Argel e pelo Congo Brazaville, Júlio regressa a Angola para combater contra o colonialismo português, presencia actos com os quais não concorda mas preserva, enquanto pode, os seus princípios. Já o seu amigo congolês Jean-Michel, morre antes de ver ou de participar na degeneração do sonho socialista. Assistimos à vertigem e freqüência com que perde amigos, por várias e tristes razões. O narrador não se priva de apontamentos críticos, como a fuga dos cérebros e o esvaziamento da dignidade que sociedades oprimidas implicam. Males diagnosticados em reflexões como esta: “poucos hoje em dia viveram as experiências de colonizados ou de escravos, que significa exatamente a não existência, o terem sido de repente apagados da vida, da memória, transmutados em não-seres humanos.”

Pepetela refere em entrevistas que há coincidências auto-biográficas, avançando que a personagem Júlio é baseada num amigo da sua adolescência, com um percurso semelhante ao seu, com quem estudou no Lubango e que o acompanhou para Portugal (Lisboa e Coimbra), tendo o autor partido daí para França e o amigo para Marrocos e Moscovo, dando-se um reencontro entre eles mais tarde em Argel.

Com uma clareza transversal à estrutura narrativa, e a descrição ritmada que não dispensa a habitual ironia, o narrador (o já referido protagonista) põe a nu uma série de incongruências da ideologia da época, na sua componente internacionalista, de se aplicar a martelo a cartilha marxista, as lutas de poder e a pressão psicológica, “em tempos de Guerra Fria paranóica e de espionagem exacerbada”. Revela um olhar implicado, de quem viveu por dentro estes conflitos que geraram muitos sonhos e lutas mas também muitos erros, nem sempre reconhecidos, a par de frases atenuantes de um contexto meio delirante como “as discordâncias não existem em certo tipo de sociedades ou regimes”.

Se o romance poderá parecer enveredar por caminhos trilhados de desencanto e nostalgia, ressurge a possibilidade do reencontro do amor nunca esquecido. Nisto, parece desenhar-se a defesa de que a felicidade pessoal e os sentimentos pelos outros, em contextos de aceleração e reviravolta da História, são afinal mais perenes do que as flutuações ideológicas e a difícil mas desejada coerência nas práticas políticas. “Quando a pretensa revolução desmoronou, assistindo eu a toda a espécie de oportunismos, de ambições escondidas, de traições, a esperança louca nesse amor me deu força de desejar sobreviver.” Esta é estória de um grande amor em Moscovo, de promessas roubadas a uma geração lutadora e agente da sua própria traição, memórias que merecem ser reavidas para percebermos também as complexidades da História pós-colonial.

(http://www.buala.org/pt/a-ler/amor-em-tempos-de-colera-recensao-a-o-planalto-e-a-estepe-de-pepetela)

 

Os vivos, o morto e o peixe frito, de Ondjaki

Reunião: 19 maio 2017

O humor e o assunto sério em “os vivos, o morto e o peixe-frito” de Ondjaki

ondjaki

Criado originalmente para uma emissão radiofônica transmitida pela RDP África no âmbito do África Festival 2006, “os vivos, o morto e o peixe-frito”[1] é apresentado ao leitor, utilizando aqui das palavras de Abderrahmane Ualibo [2] como um “exercício literário sobre aparência de texto teatral”, este exercício através da sátira trata sobre a vida dos imigrantes africanos em Portugal. A sátira começa com a denominação do autor para o prédio onde as personagens se conhecem: Migrações Com Fronteiras, para quem não sabe o atual SEF- Serviço de Estrangeiros e Fronteiras era denominado Migração Sem Fronteiras, com a pequena mudança de “sem” para “”com” o autor nos mostra como as fronteiras estão bem presentes. Enquanto esperam pelo atendimento formam uma verdadeira “confraternização palopiana”, termo utilizado para demonstrar a união, os conflitos, as variedades de culturas e as especificidades linguísticas deste verdadeiro mosaico de urgências, problemas em comum e afetos que se formam na condição de imigrantes em terras portuguesas. Obrigadas a adaptarem-se para sobreviver destacamos dentre as personagens um bom exemplo J.J. Mouraria, que reflete a tentativa de adaptabilidade linguística, dono de um português muito específico, consultor de dicionários, mas também um tipo de “bom malandro” que consegue ganhar na conversa a simpátia dos demais:

JJMOURARIA:

Atendo pelo internacional nome de Jota Jota Mouraria, originário barrigalmente das terras de S. Tomé e Príncipe, mas já vindo ao mundo nesta capital lisboeta de frios e tanta africanidade. É verdade: Jota Jota Mouraria… (pausa) O “Jota Jota” é de raízes familiares, o “Mouraria” é de afinidades urbanas, muito prazer minha senhora…?

MANA SÃO:

Conceição, mais conhecida por MANA SÃO, e este (aproxima-se de TITONHO) é o seu António, mais conhecido por TITONHO.

JJMOURARIA:

E as coordenadas geográficas, já agora?

TITONHO:

Eu sou de cabo-verde, Santo Antão e a minha prima (olhando para o segurança) Mana São, é do sul de Angola, província de Benguela.

JJMOURARIA:      

Verdadeiramente encantado por esta repentina confraternização palopiana. (pausa) Então o amigo é um “morabezístico juramentado”, e a prima Mana São vem das correntes frias de Benguela… Que maneira mais optimística de começar o dia, folgo muito em vê-los aqui nesta nossa cidade afro-europeia.

O pano de fundo da história tem a 1ª participação de Angola em Mundial de Futebol, confrontando justamente Portugal, com as personagens oriundas de diversas partes “palopianas” que se juntam dentro de um pequeno apartamento para tentar acompanhar o jogo, tarefa que se mostra no mínimo invulgar quando a única maneira de acompanhar o resultado é através do rádio sem pilhas do morto que mesmo em sua condição mortuária ainda é um fanático por futebol, além de desenrolarem-se outras histórias paralelas, como uma gravidez indesejada, uma pistola para garantir um casamento, cervejas para animar e diamantes dentro da barriga do padrinho, além da procura pela iguaria do peixe-frito para alimentar a todos. O humor é utilizado para tratar de forma séria os assuntos dos imigrantes como a precariedade das condições de alguns, além das dificuldades da legalização:

MÁRIO ROMBO

(Desesperado.)

Eu não acredito nisto… querem me matar do coração… primeiro é porque não há peixe frito… depois é que para conseguir um rádio tenho que trazer um morto e ainda por cima o rádio não funciona e o morto fica aqui a assistir o jogo…

MINA

Calma, pai…

MÁRIO ROMBO

E agora, mesmo estando na Tuga, a pagar imposto com 21 por cento mais a segurança social… a luz vai… e eu não posso ver o jogo da minha selecção… (Muito triste.) Mas eu fiz quê a Deus?!

Ondjaki consegue nos fazer rir e refletir, garantindo ao público leitor um texto bem cuidado, leve, mas longe de ser superficial e mostrando mais uma vez porque é cada vez um nome a ser levado em consideração dentro da literatura não só “palopiana” mas também mundial.

*Ondjaki nasceu em Luanda, prosador e poeta, co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda “Oxalá cresçam pitangas – histórias de Luanda” (2006). Licenciado em Sociologia, atualmente é um dos membros da União dos Escritores Angolanos, traduzido para diversas línguas, dono de uma obra já reconhecida e ganhadora de diversos prêmios entre eles, o Prémio José Saramago por “os transparentes” em 2013.

(http://www.canalsubversa.com/artigo/o-humor-e-o-assunto-serio-em-os-vivos-o-morto-e-o-peixe-frito-de-ondjaki/)

A rainha Ginga, de José Eduardo Agualusa

A rainha Ginga : e de como os africanos inventaram o mundo.

Reunião: 24 março 2017

Personalidade originalíssima da história de África e do Mundo, ao mesmo tempo arcaica e de uma assombrosa modernidade, a rainha Ginga tem fascinado gerações, desde o Marquês de Sade (que via nela um exemplo de luxúria selvagem) até às feministas afroamericanas dos nossos dias. Neste romance, José Eduardo Agualusa dá-nos a ver, através dos olhos de um dos secretários da rainha, um padre pernambucano em plena crise de fé, o agitado século em que esta viveu. Misturam-se nestas páginas personagens reais – ainda que fantásticas -, como o almirante Jol, o pirata com uma perna de pau que conquistou Luanda para a Companhia das Índias Ocidentais, com outras fictícias, ainda que mais verosímeis do que as primeiras, como Cipriano Gaivoto, o Mouro, um mercenário português ao serviço da rainha Ginga. Se é verdade que Angola tem ainda muito passado pela frente – no sentido de que há tanto passado angolano por descobrir e ficcionar -, também é verdade que este romance nos devolve um dos fragmentos mais interessantes, senão o mais interessante, deste mesmo passado. Perturbador, fascinante e poderoso, este romance de José Eduardo Agualusa é, sem dúvida, um dos momentos mais altos da sua obra.

Rainha Ginga: símbolo de resistência da mulher negra