Archivos Mensuales: marzo 2016

As aventuras de João sem Medo

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Reunião: 11 março 2016

Sinopse

João Sem Medo habita na aldeia Chora-Que Logo-Bebes, cujos habitantes vivem presos à tradição de que tanto se orgulham: chorar de manhã à noite. Um dia, o nosso herói decide saltar o Muro que protege a aldeia da Floresta Branca, local onde «os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam estalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos». Tem assim início uma viagem surpreendente, na qual João Sem Medo se irá cruzar com bichas de sete cabeças, gigantes de cinco braços, fadas, bruxas, animais que falam, e ainda com o mítico Príncipe das Orelhas de Burro. História fantástica que recorre ao imaginário mágico, por vezes de inspiração surrealista, este romance de José Gomes Ferreira é um prodígio de efabulação e engenho narrativo. Uma obra intemporal que continua a arrebatar tanto adolescentes como adultos.         (http://stoneartportugal.blogs.sapo.pt/as-aventuras-de-joao-sem-medo-e-uma-135838)

Enquadrado no Plano Nacional de Leitura, Aventuras de João sem medo é um excelente e surpreendente conjunto de histórias em torno de um rapaz que parte por terras encantadas, esperando todos os habituais clichés das aventuras com fadas e monstros com um espírito crítico que confere à narrativa um interessante aspecto cómico, muitas vezes em tom de comentário social ou político.

João sem medo nasceu na aldeia Chora-Que-Logo-Bebes, um lugar onde todos os habitantes passam os dias a chorar por tudo e por nada. Cansado desta forma de viver, João jurou não ter medo de nada (ou pelo menos não o mostrar) e decide-se a partir em aventura apesar dos receios generalizados em o deixar passar a fronteira.

É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir

Com esta frase inicia-se a grande aventura de João que logo tem de fazer uma escolha entre o caminho a seguir: o asfaltado ou o de pedregulhos. O primeiro, caminho de fácil pavimento, conduz à felicidade, mas no final terá de perder a cabeça (literalmente). Já o outro prevê-se difícil, mas ao menos irá manter o cérebro no lugar.

Esta é apenas a primeira de muitas escolhas que João terá de fazer e que o irão conduzir por caminhos inusitados onde terá de demonstrar as suas características bondosas e a coragem – não de forma inocente. João espera todas estas provas, sabendo que fazem parte das grandes aventuras mágicas e vai fazendo pequenas tiradas irónicas ou insolentes:

O descabeçado, de cigarrilha na boca do estômago, expôs-lhe então com paciência burocrática:

Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva a Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas. Segundo e último: trazer nos pés e as mãos correntes de ouro…

João Sem Medo ouriçou-se numa reacção instintiva:

Nunca! Bem se vê que não tens a cabeça no seu lugar.

(…)

Deixá-lo. Prefiro tudo a viver sem cabeça. Nem calculas a falta que ela me faz.

Este episódio inicial demonstra facilmente a dupla leitura que a maioria destas aventuras permite, metáforas de um comentário social e político, muitas deles retratando aspectos do regime Salazarista. Entre príncipes que se julgam demasiado belos para contemplar, cidades viradas do avesso e fadas travestis, João Sem Medo vai resistindo a cada aventura até que se decide voltar a casa – mas só metade!

(https://acrisalves.wordpress.com/2015/07/27/aventuras-de-joao-sem-medo-jose-gomes-ferreira/)

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José Gomes Ferreira

Foi um poeta de ímpferreira1etos românticos no civismo impetuoso com que se consagrou à causa social dos tempos do salazarismo e do pós-25 de Abril, com um vibrante amor pela natureza humana e suas debilidades conflituosas, mas com um igual empenho na palavra poética e no sentido da sua fragmentação expressiva.

Os seus vários volumes de Poesia (I-VI), 1948-1976, e os diversos textos de ficção, autobiográfica (Tempo Escandinavo, 1969), diarística (A Memória das Palavras, 1965) ou alegórica (Aventuras Maravilhosas de João Sem Medo, 1963) granjearam-lhe justo prestígio de figura tutelar do quotidiano literário do seu tempo.

Poeta, não grites.
Não arranques os homens do chão das próprias sombras.
Estes homens – vê – para quem as palavras são limites
e não grades por onde fogem pombas

(http://cvc.instituto-camoes.pt/autores-e-antologia/jose-gomes-ferreira.html#.Vt_wzDQwD3t)

Escritor, poeta e ficcionista português, natural do Porto. Formou-se em Direito em 1924, tendo sido cônsul na Noruega entre 1925 e 1929. Após o seu regresso a Portugal, enveredou pela carreira jornalística. Foi colaborador de vários jornais e revistas, tais como a Presença, a Seara Nova e Gazeta Musical e de Todas as Artes. Esteve ligado ao grupo do Novo Cancioneiro, sendo geral o reconhecimento das afinidades entre a sua obra e o neo-realismo. José Gomes Ferreira foi um representante do artista social e politicamente empenhado, nas suas reacções e revoltas face aos problemas e injustiças do mundo. Mas a sua poética acusa influências tão variadas quanto a do empenhamento neo-realista, o visionarismo surrealista ou o saudosismo, numa dialéctica constante entre a irrealidade e a realidade, entre as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento dos outros. Da sua obra poética destacam-se, para além do volume de estreia, Lírios do Monte (1918), Poesia, Poesia II e Poesia III (1948, 1950 e 1961, respectivamente), recebendo este último o Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores. A sua obra poética foi reunida em 1977-1978, em Poeta Militante. O seu pendor jornalístico reflecte-se nos volumes de crónicas O Mundo dos Outros (1950) e O Irreal Quotidiano (1971). No campo da ficção escreveu O Mundo Desabitado (1960), Aventuras de João Sem Medo (1963), Imitação dos Dias (1966), Tempo Escandinavo (1969) e O Enigma da Árvore Enamorada (1980). O seu livro de reflexões e memórias A Memória das Palavras (1965) recebeu o Prémio da Casa da Imprensa. É ainda autor de ensaios sobre literatura, tendo organizado, com Carlos de Oliveira, a antologia Contos Tradicionais Portugueses (1958). Em Junho de 2000, foi lançada no porto a colectânea Recomeço Límpido, que inclui versos e prosas de dezenas de autores em homenagem a José Gomes Ferreira.

(http://www.escritas.org/pt/bio/jose-gomes-ferreira)