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(Dibujo de Noemí Villamuza)

Farda, fardão, camisola de dormir : fábula para acender uma esperança, de Jorge Amado

farda_fardao_camisola_de_dormir  Reunião: 13 fevereiro 2018

Em 1940, o exército alemão soma vitórias pela Europa. Entre elas, a tomada da cidade de Paris. No Brasil, repressão e tortura são práticas correntes do Estado Novo, regime instituído por Getúlio Vargas em 1937, então ainda simpático ao projeto nazista de Hitler.
É neste panorama geopolítico internacional e brasileiro que morre, na capital francesa, o poeta romântico e boêmio Antônio Bruno. Com isso, abre-se uma vaga na Academia Brasileira de Letras, fato que vai desencadear uma verdadeira guerra nos meios intelectuais do Rio de Janeiro.

Estruturado em capítulos breves, como um espirituoso folhetim, Farda, fardão, camisola de dormir faz uso de um humor ferino e do ritmo caudaloso da escrita do autor para, a partir de um caso localizado e particular, abordar assuntos universais e mais abrangentes.

A acirrada disputa entre os literatos pode ser comparada, com certa licença poética, à guerra travada em terras européias. De um lado, está o coronel Agnaldo Sampaio Pereira, simpatizante do nazismo. Do outro, o general reformado Waldomiro Moreira. A querela prolonga-se por longos quatro meses. Mas os dois candidatos não se equiparam ao estilo e à verve do poeta morto. Tampouco aos princípios humanistas de Bruno. Muito menos ao sucesso que este fazia com as mulheres, como a comunista Maria Manuela.
Como indica o subtítulo original,
Fábula para acender a esperança, a narrativa é uma sátira leve e divertida do conservadorismo político da elite, da hipocrisia das tradições familiares e da vaidade intelectual dos literatos.

Passagens da biografia de Jorge Amado estão presentes no romance. A trama da narrativa, sobre a disputa por uma vaga de imortal na Academia Brasileira de Letras, remete à eleição do próprio Jorge Amado para a ABL, ocorrida em 1961.

Além disso, a época em que viveu o personagem Antônio Bruno, poeta autor de “A camisola de dormir”, foi das mais importantes e conturbadas da carreira do autor. Jorge Amado situa a trama do livro em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial e a ascensão do nazismo. No país, vivia-se o regime ditatorial do Estado Novo (1937-45), quando o escritor foi vítima de censura e perseguição por sua filiação ao Partido Comunista Brasileiro.
Jorge Amado escreveu
Farda, fardão, camisola de dormir em sua casa de Itapuã, em Salvador, entre janeiro e junho de 1979. O fato de o livro ter sido publicado ainda durante a ditadura militar faz dele, ao abordar tais temas, uma alegoria contra o autoritarismo do passado e também daquele momento histórico.

Tendo esse cenário político de fundo, o livro procura exaltar a liberdade que ainda se vislumbrava possível. O autor busca despertar no leitor a crença na possibilidade de mudança do status quo. Não à toa essa mensagem está expressa na moral desta fábula, como o próprio autor define a narrativa: “A moral? Veja: em toda parte, pelo mundo afora, são as trevas novamente, a guerra contra o povo, a prepotência. Mas, como se comprova nesta fábula, é sempre possível plantar, acender uma esperança”.

http://www.jorgeamado.com.br/vida.php3

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Sophia de Mello Breyner Andresen no seu tempo: Momentos e Documentos

pagina sobre sophia

A realização deste site acompanhou a chegada à Biblioteca Nacional de Portugal do Espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen, doado pela família.

O espólio de Sophia traz, naturalmente, as marcas da vida, com todos os seus acidentes biográficos. São cadernos e folhas soltas com rascunhos e diferentes versões de vários tipos de textos, esboços de projectos, traduções; são cartas, agendas cheias de notas sobre afazeres do dia-a-dia (números de telefone, receitas de cozinha, contas domésticas), diários de viagem, desenhos, recortes de jornais com depoimentos e entrevistas, fotografias; são impressos que documentam gestos de solidariedade e envolvimento cívico e político. Mas, para além de tudo isto, o espólio traz a marca vincada daquela procura obstinada da palavra «exacta», como ela própria dizia, que no poema encontrou a sua forma mais resistente e secreta, mais clara e eficaz. Traz o rasto e a história da sua tentativa.

Existe no site uma zona documental onde podem ser encontrados registos muito interessantes: Sophia a dizer os próprios poemas, poemas e depoimentos de Sophia sobre outros poetas e amigos, poemas de outros poetas sobre Sophia (por exemplo de Alberto Lacerda), entre os quais alguns inéditos; excertos do filme de João César Monteiro sobre Sophia, retratos de Sophia feitos por vários artistas: Arpad Szenes, Menez, Júlio, Martins Correia, etc; obras de vários artistas plásticos ilustrando livros de Sophia; Sophia fotografada por grandes fotógrafos; depoimentos, etc.

(Selecção, conteúdos e organização por Maria Andresen Sousa Tavares)

Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Contos-Exemplares

Reunião: 12 janeiro 2018

Um homem e uma mulher que se perdem num caminho; um bispo que tenta, a todo o custo, salvar uma igreja; uma mulher que não olha a meios para atingir fins; três reis à procura de uma nova luz…

Para além do bem e do mal, de Deus e do Diabo, estes sete contos põem em cena situações exemplares da vida humana, na sua dificuldade e na sua beleza.

 

 

Sobre Sophia de Mello Breyner Andresen

Por Clara Rocha

sophiademellobreyner

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto a 6 de novembro de 1919 e faleceu em Lisboa a 2 de julho de 2004. Da infância aristocrática e feliz passada no Porto ficaram imagens e reminiscências que povoam, de forma explícita ou alusiva, a sua obra poética e ficcional, particularmente os contos para crianças: a casa do Campo Alegre, o jardim, a praia da Granja (sobre a qual escreveria, em 1944, em carta a Miguel Torga: “A Granja é o sítio do mundo de que eu mais gosto. Há aqui qualquer alimento secreto”), os Natais celebrados segundo a tradição nórdica (também evocados por Ruben A. na sua autobiografia O Mundo à Minha Procura) foram lugares e vivências que marcaram de forma determinante o imaginário da autora.

Entre 1936 e 1939 frequentou o curso de Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Familiarizou-se assim com a civilização grega, que profundamente admirou e que aparece também espelhada na sua obra, seja em poemas que glosam motivos helénicos (figuras históricas, figuras mitológicas, lugares carregados de significado histórico ou mítico), seja naqueles que, dum modo mais geral, recuperam as noções clássicas de harmonia, inteireza e justiça (veja-se, por exemplo, o primeiro verso do poema “Catarina Eufémia”, no volume Dual: “O primeiro tema da reflexão grega é a justiça”). O retorno a um tempo arquetípico e primordial, anterior ao “tempo dividido” em que vivemos, é um dos veios fundamentais da obra poética de Sophia, que nele busca uma forma de religação do ser, uma aliança entre o homem e a natureza. Sucessivas viagens à Grécia, ao longo da vida, reforçaram esse veio, presente desde o livro Poesia (poemas “Dionysos”, “Apolo Musageta”) e recorrente nos volumes poéticos seguintes. O ensaio O Nu na Antiguidade Clássica (1975), ajuda-nos a compreender melhor a identificação de Sophia com o mundo clássico: embora tenha como objeto a arte grega, e em particular a representação do corpo entre os gregos, pode ser lido como mais uma das “artes poéticas” em que a autora explicita algumas noções fundadoras da sua própria poesia.

Sophia colaborou na revista Cadernos de Poesia e aí fez sólidas amizades, nomeadamente com Ruy Cinatti e Jorge de Sena (foi recentemente editada a correspondência trocada com este último entre 1959 e 1978). A primeira série dos Cadernos saiu em Lisboa entre 1940 e 1942, tendo por organizadores Tomaz Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti. Sob o lema “A Poesia é só uma”, repetido no limiar de cada número ao longo das três séries, a revista defendeu a vocação ecuménica da Poesia (com p maiúsculo), sublinhou a independência do ideal estético relativamente a escolas ou partidos e admitiu eclecticamente a colaboração de artistas provenientes dos mais diversos quadrantes.

Data de 1944 o primeiro volume poético de Sophia, intituladoPoesia. Editado no ano em que autora completou vinte e cinco anos, mas incluindo alguns poemas escritos ainda no final da adolescência, Poesia é um livro inaugural a vários títulos. Antes de mais, pelas marcas de intenso e juvenil entusiasmo vital que nele encontramos (coexistindo, todavia, com um lado noturno e decetivo). Logo o poema de abertura nos fala desse entusiasmo, situando-o no plano dos sonhos e da sua força performativa: “Apesar das ruínas e da morte,/ Onde sempre acabou cada ilusão,/ A força dos meus sonhos é tão forte,/Que de tudo renasce a exaltação/ E nunca as minhas mãos ficam vazias”. Algumas páginas adiante, o poema “Pudesse eu” é igualmente a expressão duma apetência pela vida e dum desejo de disponibilidade total para a viver, expressão tanto mais intensa quanto se resume numa síntese de quatro versos: “Pudesse eu não ter laços nem limites/ Ó vida de mil faces transbordantes/ Pra poder responder aos teus convites/ Suspensos na surpresa dos instantes”.

Poesia é também um livro de estreia pela forma autorreflexiva como regista a procura dum caminho poético. Se nos primeiros versos do poema “Tudo” esse caminho é ainda um tanto indefinido, nos últimos de “O jardim e a casa” ele é vislumbrado com mais nitidez: “Trago o terror e trago a claridade,/ E através de todas as presenças/ Caminho para a única unidade”. Mas no poema “As fontes”, sem dúvida um dos mais inteiros e exatos deste volume, encontramos já um rumo poético bem vincado. Há nele uma promessa de claridade e de plenitude, e, de forma projetiva, esboça-se uma conceção essencialista da poesia como desocultação ou desvelamento, como regresso a uma verdade antiga do ser, que se tornará um dos grandes eixos da obra poética de Sophia.

A noite é uma presença muito forte neste primeiro livro de versos e será um motivo constante em toda a obra, inclusivamente nos contos para crianças. São reveladores títulos como “Noite”, “Luar”, “O jardim e a noite”, “Noite das coisas”, “Noites sem nome”, “Noite de abril” e “Ó noite”, sinalizando uma poesia que recupera, ainda que com modulações próprias, o tópos da vivência noturna do poeta, de larga tradição literária; em Sophia, essa vivência ora exalta a fantasmagoria e o mistério, ora se maravilha com a beleza que a noite traz consigo (sendo o adjetivo “brilhante” um dos preferidos para a qualificar), ora está ligada a um desejo de fuga ou evasão em que ecoa a ânsia mallarmeana de “fuir, là-bas fuir”, ora permite o reencontro do eu consigo mesmo no silêncio e na solidão, como no poema “O jardim e a noite”.

O volume Poesia é, por último, um livro inaugural por conter, neste mesmo poema, três versos que modelarmente definem uma questão central na obra de Sophia, a saber, a relação entre poesia e magia. Esses três versos são os seguintes: “Palavras que eu despi da sua literatura,/ Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,/ De fórmulas de magia”. Pode dizer-se que constituem a primeira arte poética de Sophia e a mais importante deixa para os livros subsequentes. De facto, a imagem do poeta possesso, com a sua componente órfica, será largamente textualizada nos catorze volumes de poesia publicados entre 1944 e 1997 (cf., em especial, as “Artes poéticas” em que a autora descreve a emergência do poema), bem como nos Contos Exemplares (veja-se o conto “Homero”, que representa de forma alegórica, através do encontro entre a criança e o vagabundo, a descoberta da poesia na sua forma mais pura e primitiva). Desenha-se, também, na obra de Sophia um retorno às conceções essencialistas da linguagem que postulam o princípio de concreção entre o verbum e a res. É na identificação do verbum com a res que reside a força mágica da linguagem, sendo a nomeação (recorde-se o título O Nome das Coisas) uma forma encantatória de restituir às coisas a sua realidade, o seu ser. A poesia regressa, assim, à sua vocação original de injunção do espírito, e projeta-se como uma religação, uma “participação no real”, uma união sagrada entre o homem e a natureza.

Depois do casamento, em 1946, com Francisco Sousa Tavares – advogado, jornalista e politico – , a poesia de Sophia tornou-se mais interveniente e atenta às questões sociais do seu tempo. Em Livro Sexto Dual, nomeadamente, surge carregada de revolta perante a tirania, a injustiça e a corrupção, com momentos de grande força apelativa, como “Pranto pelo dia de hoje”, “Exílio” e “O velho abutre”, entre outros. Idênticas preocupações estão presentes no volumeContos Exemplares (1962), em cuja dedicatória se lê: “Para o Francisco, que me ensinou a coragem e a alegria do combate desigual”, e onde a autora alia um sentido de intervenção politica à sua mundividência humanista cristã. Paralelamente, Sophia teve uma atuação cívica relevante antes e depois do 25 de Abril, na oposição ao regime de Salazar e na defesa das liberdades: foi cofundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores e, após a Revolução, deputada à Assembleia Constituinte.

Foi distinguida com o Prémio Camões em 1999, o Prémio Max Jacob de Poesia em 2001 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana em 2003.

A extensa obra que nos legou reparte-se pelos domínios da poesia, da ficção, do conto para crianças, do ensaio, do teatro e, last but not least, da tradução (com magníficas versões de textos de Eurípides, Shakespeare, Claudel e Dante).

Bibliografia ativa:

Poesia: Poesia, Coimbra, ed. Da Autora, 1944; Dia do Mar, Lisboa, Edições Ática, 1947; Coral, Porto, Livraria Simões Lopes, 1950; No Tempo Dividido, Lisboa, Guimarães Editores, 1954; Mar Novo, Lisboa, Guimarães Editores, 1958; O Cristo Cigano, Lisboa, Minotauro, 1961; Livro Sexto, Lisboa, Livraria Morais Editora, 1962;Geografia, Lisboa, Ática, 1967; Dual, Lisboa, Moraes Editores, 1972;O Nome das Coisas, Lisboa, Moraes Editores, 1977; Navegações, Lisboa, IN-CM, 1983, Ilhas, Lisboa, Texto Editora, 1989; Musa, Lisboa, Editorial Caminho, 1994; O Búzio de Cós e Outros Poemas, Lisboa, Editorial Caminho, 1997.

Prosa: Contos Exemplares, Lisboa, Livraria Morais Editora, 1962;Histórias da Terra e do Mar, Lisboa, Edições Salamandra, 1984.

Contos para crianças: A Menina do Mar, Lisboa, Ática, 1958; A Fada Oriana, Lisboa, Ática, 1958; A Noite de Natal, Lisboa, Ática, 1959; O Cavaleiro da Dinamarca, Porto, Figueirinhas, 1964; O Rapaz de Bronze, Lisboa, Minotauro, 1965; A Floresta, Porto, Figueirinhas, 1968; A Árvore, Porto, Figueirinhas, 1985.

Teatro: O Bojador, Lisboa, 2ª ed., Editorial Caminho, 2000 (1ª ed. s/d.); O Colar, Lisboa, Editorial Caminho, 2001.

Ensaio: O Nu na Antiguidade Clássica, Lisboa, 3ª ed., Editorial Caminho 1992 (1ª ed., 1975).

Traduções: A Anunciação a Maria (Paul Claudel), Lisboa, Editorial Aster, 1960; O Purgatório (Dante), Lisboa, Minotauro, 1962; Muito Barulho por Nada (Shakespeare), 164 (inédito); Hamlet (Shakespeare), Porto, lello & Irmão Editores, 1987; Quatre poètes portugais – Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Paris, P.U.F. e Fundação Calouste Gulbenkian – Centre Culturel Portugais, 1970; Medeia (Eurípides), s/d. (inédito).

Alguma bibliografia passiva:

Eduardo Prado Coelho, “O real, a aliança e o excesso na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen”, in A Palavra sobre a Palavra, Porto, 1972; Id., “A lírica e a lógica”, Colóquio/Letras, nº 57, Lisboa, 1980; Maria de Lourdes Belchior, “Itinerário poético de Sophia”,Colóquio/Letras, nº 57, Lisboa, 1980; Fiama Hasse Pais Brandão, “O triplo nome Sophia”, in A Phala – Um Século de Poesia, Lisboa, 1988;Letras e Letras, nº 47, Porto, 1991, dossier Sophia de Mello Breyner Andresen, pp. 7-14; Silvina Rodrigues Lopes, Poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, apresentação, critica, selecção e sugestões para análise literária, Lisboa, 1989; Clara Crabbé Rocha,Os “Contos Exemplares” de Sophia de Mello Breyner, Coimbra, 2ª ed., 1980; Id., “Sophia de Mello Breyner Andresen: poesia e magia”, in O Cachimbo de António Nobre e Outros Ensaios, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003; Maria Alzira Seixo, “Histórias da Terra e do Mar”, Colóquio/Letras, nº 87, Lisboa, 1985.

 

A confissão da leoa, de Mia Couto

confissaodaleoa Reunião: 12 dezembro 2017

Deus já foi mulher”, assim se inicia o último romance de Mia Couto. Publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2012, A confissão da Leoa traz as inconfundíveis marcas literárias do escritor moçambicano. O abalo entre as fronteiras da ficção e da realidade, a fusão do discurso narrativo e da linguagem poética e o conflito entre o universo ancestral e a herança colonial continuam presentes na criação do autor.

Inspirada em uma experiência real, o mote da obra é o ataque de leões a uma pequena comunidade no norte de Moçambique. Entretanto, o episódio se desenvolve como pano de fundo para iluminar tanto questões existenciais, como a morte e a loucura, quanto impasses sociais e históricos ao refletir a condição da mulher e as marcas deixadas pela colonização e pela guerra.

O escritor explica, nas primeiras notas, que o romance surge de sua experiência como biólogo: “Em 2008, a empresa em que trabalho enviou quinze jovens para atuarem como oficiais ambientais de campo durante a abertura de linhas de prospecção sísmica em cabo Delgado, no Norte de Moçambique. Na mesma altura e na mesma região, começaram a ocorrer ataques de leões a pessoas. Em poucas semanas, o número de ataques fatais atingiu mais de uma dezena. Esse número cresceu para vinte em cerca de quatro meses.”

Inspirado neste caso, Mia Couto acrescenta, ainda, que as personagens da trama foram baseadas em pessoas reais. Entre as personagens, estão os dois protagonistas, Mariamar e Arcanjo Baleiro. Ambos são narradores-personagens, pois a obra se desenvolve a partir de seus escritos biográficos, apresentados de forma intercalada no romance. Os escritos da moça, intitulados versão de Mariamar, ainda que repletos de subjetividades, relatam os acontecimentos pela ótica local. A moça vive em Kulumani, aldeia onde se desenvolve a trama. De seu pertencimento à terra, resulta a intimidade com o espaço – o rio que cruza a vila, o mato, a aldeia – e com as tradições locais – a religiosidade, os costumes, a memória. Em contraposição, os escritos de Baleiro, diário do caçador, apresenta o olhar do viajante. O caçador de leões, proveniente da capital.

Mestrando sob orientação Profa. Rosangela Sarteschi, Programa de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa lança mão de sua condição de estrangeiro para refletir sobre os insólitos episódios da aldeia.

O enredo se desenvolve assim em um pequeno povoado no interior de Moçambique onde mulheres começam a ser devoradas por leões. Uma empresa que está na região contrata os serviços de Arcanjo Baleiro para matar os animais que aterrorizam a comunidade isolada. Além do caçador, também é enviado para acompanhar a expedição um escritor de renome, Gustavo Regalo, que recebe a tarefa de registrar e reportar a caçada. Seguem também à pequena vila o administrador da província, Florindo Makwala, e sua esposa, Naftalinda. É importante ressaltar que o caçador Arcanjo Baleiro já estivera na aldeia dezesseis anos antes, ocasião em que salvara Mariamar de um estupro, na época uma jovem de dezesseis anos de idade. Desse encontro nasce uma paixão, no entanto, o caçador parte da aldeia, deixando Mariamar sem qualquer notícia ou explicação.

Já no tempo presente da narrativa, com o retorno do caçador, Mariamar é proibida de sair de sua casa. Enclausurada, passa a relatar suas memórias nos escritos da versão de Mariamar. A paralisia das pernas na adolescência, as histórias do avô Adjiru, a permanência na missão católica e os constantes acessos psicopatológicos são as principais substâncias desses depoimentos. Também Baleiro utiliza-se da escrita comomeio para examinar o seu passado. A enfermidade mental do irmão, a paixão reprimida pela cunhada, Luzilia, e a morte do pai pelas mãos do irmão doente são elementos que carreiam o diário do caçador.

Nas divagações de ambos os narradores convergem um tema comum ao utilizarem a escrita como forma mediadora entre suas pulsões íntimas e o mundo: o humano frente à morte e à insanidade. Na produção de Mia Couto, em geral, a morte é um episódio tratado com naturalidade, sem lugar especial à tristeza, não obstante, apareça ao lado da loucura em A confissão da Leoa. Os escritos de Baleiro explicam que o morto ainda é parte integrante da vida social, continuando a interferir nas regras dos vivos. Já a loucura, para o caçador, é a alienação plena e a verdadeira morte do sujeito social. No caso de Mariamar, a relação entre vida social e morte ganha outros sentidos. A moça vê a si mesma como alguém que nunca nasceu. Nascida já morta, desumanizada e desencontrada do meio social, persegue a sua própria humanidade reincidentemente negada por todos.

A condição de nascida morta não é exclusiva da protagonista. Constrói-se no romance o apagamento da existência feminina: a mulher, seja na realidade tradicional ou no contexto do assimilado, sofre a subjugação por meio da exploração, da agressão física e psíquica e da anulação do direito à voz. A mãe de Arcanjo Baleiro é submetida a kusungabanga, isto é, costuram “a vagina da mulher com agulha e faca” (COUTO, 2012, p. 203) antes da emigração do marido para trabalhar. A narradora e suas irmãs são abusadas sexualmente pelo pai. Tandi, empregada do administrador da província, é violentada e morta pelos homens da aldeia por cruzar uma região proibida às mulheres. Todas são impedidas de frequentar a shitala, local de encontro dos homens na comunidade. Contudo, a primeira dama da província, Naftalinda, aparece então como a voz que confrontará esta realidade, denunciando em alto tom o crime cometido pelos homens e demonstrando publicamente que se opõe às regras de submissão impostas à mulher.

Já no caso da morte, esta possui um lugar significativo na memória das personagens. Os habitantes de Kulumani, ao serem interrogados sobre os eventos da guerra, mantinham silêncio. Arcanjo Baleiro esclarece o mutismo: “Onde há sangue não há palavra. O escritor [Gustavo Regalo] está a pedir aos mortos que mostrem as cicatrizes” (COUTO, 2012, p. 109). Todas as personagens do romance, tanto as originárias da aldeia como as da cidade, possuem a cicatriz comum da colonização e da guerra em suas memórias.

A morte, entretanto, na cosmovisão africana, pressupõe também o renascimento dentro do ciclo natural. Mariamar, que nunca nascera e que fora despojada de sua humanidade, recebe de sua mãe, Hanifa Assulua, a corda do tempo que até então lhe haviam negado. As mulheres da família contam os meses de gravidez dando nós no antigo artefato. À Mariamar é dada a sua condição divina no desfecho da narrativa. É detentora da criação da vida e do tempo. Talvez seja esta a razão da identidade de Deus ser concedida à mulher na introdução do romance.

Igor Fernando Xanthopulo Carmo

Videoclipe: A Desumanização, por Valter Hugo Mãe interpretado por Márcia, Camané e Dead Combo

Videoclipe: A desumanização

No filme “O Sentido da Vida”, de Miguel Gonçalves Mendes, sete compositores foram convidados para elaborar temas que reflitam as mundividências de cada um dos sete personagens, para que funcione ao longo do documentário como uma espécie de coro de tragédia grega que faz progredir a narrativa. Todos os temas partem das entrevistas preparatórias que o realizador fez a cada um dos personagens.

Para o escritor Valter Hugo Mãe e o seu poema “Contabilidade”, Márcia, autora do álbum “Casulo”, foi convidada para construir um tema com uma melodia cuidadosamente preparada e interpretada pelos Dead Combo, banda formada por Pedro Gonçalves e Tó Trips, conhecidos sobretudo pelas suas músicas que misturam influências do fado e do rock, trilhas sonoras de westerns e temas regionais da América do Sul e África. A Márcia e aos DeadCombo junta-se também o fadista Camané, uma das principais vozes do fado em Portugal.

POEMA CONTABILIDADE

venho para te cortar os
dedos em moedas pequenas e
com elas pagar ao coração o
mal que me fizeste

*

o pior amor é este, o que já é
feito de ódio também. o pior amor
é este, o que já é feito de ódio também,
o pior é o amor é este, o que
já é feito de ódio também

Valter Hugo Mãe

A Desumanização, de Valter Hugo Mãe

Reunião: 10 novembro 2017

O romance de Valter Hugo Mãe é uma verdadeira declaração de amor à Islândia.

Há na beleza feroz da paisagem islandesa algo de desolação, de abandono, de inevitável solidão. E isso transmite-se sem fim a quem nela vive. Resta aprender a viver com isso, aprender a transformar a escuridão em paciente espera, as crateras fumegantes em entranhas de dragões antigos, as enormes montanhas de gelo em gigantes que olham por nós, os rios indomáveis em serpentes benignas, os prados queimados pelo gelo e pelo vento em charnecas floridas onde pastam ovelhas, e tratar os negros abismos como se fossem as bocas silenciosas de deuses. Há que saber que, naquela ilha, a água, a pedra, o vento e o fogo são habitados por forças vitais. E é mesmo assim que tudo isto surge no mais recente romance de Valter Hugo Mãe (n. 1971), A Desumanização, cuja acção tem lugar na Islândia. O autor conseguiu passar para a escrita, com uma notável e singular sensibilidade poética, o avassalamento provocado por aquela paisagem geologicamente igual à dos “dias do começo do mundo”. Uma personagem, explicando a Islândia à filha, diz: “Não te aproximes demasiado das águas, podem ter braços que te puxem para que morras afogada. Não subas demasiado alto, podem vir pés no vento que te queiram fazer cair. Não cobices demasiado o sol no Verão, pode haver fogo na luz que te queime os olhos. Não te enganes com toda a neve, podem ser ursos deitados à espera de comer. Tudo na Islândia pensa. Sem pensar, nada tem provimento aqui.”


Valter Hugo Mãe deu novas roupagens a elementos da mitologia nórdica, fundindo-os com outros de carácter contemporâneo. Numa atmosfera dominada pelos elementos, ferozes e por vezes opressivos, de uma natureza não subjugada pelo homem, tão característica de um tempo que apesar de actual nos remete sempre para a memória lírica do mito, para um tempo dominado por uma sombria solidão, o autor ergue uma história de amor e de redenção numa aldeia perdida num fiorde no Noroeste da ilha.


O lugar são duas dezenas de casas e a igreja, um sítio onde parece que tudo foi negado aos seus habitantes, menos o amargo sofrimento. Halldora é a irmã “menos morta” de duas gémeas (Sigridur está enterrada). Vive com os pais, um pescador e uma mãe perturbada que se corta na pele para que essa dor faça esquecer outras mais profundas. Einar é o “tolo” da aldeia, vive num quarto na igreja (arranjado por outro homem que “havia anos o tentavam domesticar”); lembra-se ainda de quando era como os outros rapazes, mas isso foi antes de um estranho acidente acontecido com o pai. Na inocência da infância de Halldora nasce o amor desta por Einar — que se torna no fio condutor da narrativa. Há ainda mais duas ou três personagens que, à vez, vão contribuindo para manter a acção viva até ao epílogo.


Valter Hugo Mãe faz um sábio uso da cultura islandesa — não apenas da sua enorme tradição literária épica — ao integrar no romance, com grande mestria, referências à culinária tradicional, à pintura (sobretudo à obra de Jóhann Sveinsson Kjarval) e à música (é subtil a evocação dos hinos religiosos compostos por Hallgrímur Pétursson, poeta do século XVII); no campo literário é sobretudo notória, mais do que qualquer outra, a influência do “sopro poético” de Thor Vilhjálmsson (Arde o Musgo Cinzento, Cavalo de Ferro, 2012), o seu gosto pela prosopopeia, a sua maneira tão singular de descrever como o homem islandês se relaciona com as forças da natureza, primordiais e misteriosas, “como um veleiro que se move entre as costas do mito”, usando as palavras do poeta Ted Hughes. “Contava-se que, num tempo inicial, voavam dragões famintos que devoravam tudo quanto lhes adoçasse as entranhas zangadas. Contava-se que, devastadas as coisas todas, os dragões haviam perdido a capacidade de voar e haviam parado exaustos um pouco por toda a parte. Arfavam e empederniam. Dizia-se que, de tão grandes e espessas peles, haviam radicado como montanhas de boca aberta.”


Todo o romance é atravessado pela presença de deus, que se revela sempre através da beleza da poesia ou da natureza. Não é o Deus de nenhuma das religiões monoteístas (apesar de algumas referências à Igreja), mas uma estranha combinação entre animismo e as ideias de Espinosa. É o deus silencioso que vive nas coisas, que só fala através da poesia; o homem é apenas a “carne do poema”, um ser sempre à espera do fim, na desolação da sua existência, porque “tudo na vida tem a ver com a morte”.


Em A Desumanização — que é, provavelmente, o melhor romance de Valter Hugo Mãe —, a linguagem, a maior virtude do livro, é cuidada e alegórica, onírica e consistente, sem se deixar cair em exageros desnecessários que, do ponto de vista estético, poderiam estragar o conjunto. As personagens, tão típicas do universo literário do autor (enjeitados, desvalidos ou diminuídos aos olhos da sociedade), abandonam desta vez alguma da sua bondade para, por fim, experimentarem uma verdadeira epifania.

(https://www.publico.pt/2013/09/18/culturaipsilon/critica/a-boca-silenciosa-de-deus-1658456)

Pepetela

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) nasceu em Benguela, a 29 de Outubro de 1941. Fez os seus estudos primários e secundários em Benguela e Lubango, partindo em 1958, para Lisboa para fazer o curso superior. Frequentou o Instituto Superior Técnico, tendo nessa altura participado em actividades literárias e políticas na Casa dos Estudantes do Império. Por razões políticas em 1962, saiu de Portugal para Paris, França, onde passou seis meses, seguindo para a Argélia, onde se licenciou em Sociologia e trabalhou na representação do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e no centro de Estudos Angolanos, que ajudou a criar.

“Quando regresso a Benguela, tenho sempre a sensação de reentrar no ventre materno. Começa pelo ar. Cada terra tem o seu ar, com consistência própria e sobretudo cheiros particulares. Sinto isso ao chegar, sendo mais acentuado se a viagem é feita de avião, em que não há etapas de transição para adaptação dos sentidos às mudanças… Depois há a cidade e as gentes.” Palavras de Pepetela sobre a sua cidade natal.

Em 1969 parte para a região de Cabinda participando directamente na luta armada como guerrilheiro e como responsável pelo sector da educação. Adoptou o nome de guerra de Pepetela, que significa pestana na língua Umbundo, e que mais tarde viria a utilizar como pseudónimo literário. Em 1972 é transferido para a Frente Leste desempenhando as mesmas funções até 1974. Integrou a primeira delegação do MPLA que chegou a Luanda em Novembro de 1974.

Desempenhou os cargos de Director de Departamento de Educação e Cultura e do Departamento de Orientação Política. Foi membro do Estado Maior da Frente Centro. De 1975 a 1982 foi vice-ministro da Educação, passando posteriormente a leccionar sociologia na Universidade de Luanda.

“A terra que a boca de Alexandre Semedo morde lhe sabe bem. É o cheiro do barro molhado pelo orvalho de madrugada e o som longínquo de badalos de vacas na vastidão do Mundo. Leva esse sabor o cheiro da terra molhada para cima da pitangueira, onde fica a baloiçar para sempre.” In: Pepetela. Yaka. 1985, p.395.

É membro fundador da União dos Escritores Angolanos. Grande parte da sua obra literária foi publicada após a independência de Angola, sendo alvo de inúmeros estudos em várias universidades e instituições de ensino em Angola e noutros países. As suas obras foram publicadas em Angola, Portugal, Brasil, além de estarem traduzidas em quinze línguas.

“É a escrita mestiça de um dos maiores nomes da literatura africana, de um dos melhores criadores de expressão portuguesa. Uma escrita grande na beleza estética, imensa no sentido comunicacional, cuidada na forma rigorosa, contida, e libertadora numa sempre renovada proposta-activa de fazer do pensamento, hoje, a arma principal contra todas as moléstias sociais, políticas e culturais. Guerrilheiro que foi, Pepetela sabe definir os tempos e as circunstâncias. Por isso mesmo, guerrilheiro continua, guerrilheiro, todavia, que usa as palavras para um combate que tem de travar-se nos campos do conhecimento e da reflexão.” In: Maria Augusta Silva, Diário de Notícias.

Foi galardoado com os seguintes prémios: Prémio Nacional de Literatura (1980) pelo livro “Mayombe”; Prémio Nacional de Literatura (1985) pelo livro “Yaka” Prémio Especial dos Críticos de São Paulo (1993 – Brasil) pela obra “A Geração da Utopia”; Prémio Camões (1997) pelo conjunto da sua obra; Prémio Prinz Claus (1999) pelo conjunto da sua obra.

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