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Sophia de Mello Breyner Andresen no seu tempo: Momentos e Documentos

pagina sobre sophia

A realização deste site acompanhou a chegada à Biblioteca Nacional de Portugal do Espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen, doado pela família.

O espólio de Sophia traz, naturalmente, as marcas da vida, com todos os seus acidentes biográficos. São cadernos e folhas soltas com rascunhos e diferentes versões de vários tipos de textos, esboços de projectos, traduções; são cartas, agendas cheias de notas sobre afazeres do dia-a-dia (números de telefone, receitas de cozinha, contas domésticas), diários de viagem, desenhos, recortes de jornais com depoimentos e entrevistas, fotografias; são impressos que documentam gestos de solidariedade e envolvimento cívico e político. Mas, para além de tudo isto, o espólio traz a marca vincada daquela procura obstinada da palavra «exacta», como ela própria dizia, que no poema encontrou a sua forma mais resistente e secreta, mais clara e eficaz. Traz o rasto e a história da sua tentativa.

Existe no site uma zona documental onde podem ser encontrados registos muito interessantes: Sophia a dizer os próprios poemas, poemas e depoimentos de Sophia sobre outros poetas e amigos, poemas de outros poetas sobre Sophia (por exemplo de Alberto Lacerda), entre os quais alguns inéditos; excertos do filme de João César Monteiro sobre Sophia, retratos de Sophia feitos por vários artistas: Arpad Szenes, Menez, Júlio, Martins Correia, etc; obras de vários artistas plásticos ilustrando livros de Sophia; Sophia fotografada por grandes fotógrafos; depoimentos, etc.

(Selecção, conteúdos e organização por Maria Andresen Sousa Tavares)

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Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen

Contos-Exemplares

Reunião: 12 janeiro 2018

Um homem e uma mulher que se perdem num caminho; um bispo que tenta, a todo o custo, salvar uma igreja; uma mulher que não olha a meios para atingir fins; três reis à procura de uma nova luz…

Para além do bem e do mal, de Deus e do Diabo, estes sete contos põem em cena situações exemplares da vida humana, na sua dificuldade e na sua beleza.

 

 

Sobre Sophia de Mello Breyner Andresen

Por Clara Rocha

sophiademellobreyner

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto a 6 de novembro de 1919 e faleceu em Lisboa a 2 de julho de 2004. Da infância aristocrática e feliz passada no Porto ficaram imagens e reminiscências que povoam, de forma explícita ou alusiva, a sua obra poética e ficcional, particularmente os contos para crianças: a casa do Campo Alegre, o jardim, a praia da Granja (sobre a qual escreveria, em 1944, em carta a Miguel Torga: “A Granja é o sítio do mundo de que eu mais gosto. Há aqui qualquer alimento secreto”), os Natais celebrados segundo a tradição nórdica (também evocados por Ruben A. na sua autobiografia O Mundo à Minha Procura) foram lugares e vivências que marcaram de forma determinante o imaginário da autora.

Entre 1936 e 1939 frequentou o curso de Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Familiarizou-se assim com a civilização grega, que profundamente admirou e que aparece também espelhada na sua obra, seja em poemas que glosam motivos helénicos (figuras históricas, figuras mitológicas, lugares carregados de significado histórico ou mítico), seja naqueles que, dum modo mais geral, recuperam as noções clássicas de harmonia, inteireza e justiça (veja-se, por exemplo, o primeiro verso do poema “Catarina Eufémia”, no volume Dual: “O primeiro tema da reflexão grega é a justiça”). O retorno a um tempo arquetípico e primordial, anterior ao “tempo dividido” em que vivemos, é um dos veios fundamentais da obra poética de Sophia, que nele busca uma forma de religação do ser, uma aliança entre o homem e a natureza. Sucessivas viagens à Grécia, ao longo da vida, reforçaram esse veio, presente desde o livro Poesia (poemas “Dionysos”, “Apolo Musageta”) e recorrente nos volumes poéticos seguintes. O ensaio O Nu na Antiguidade Clássica (1975), ajuda-nos a compreender melhor a identificação de Sophia com o mundo clássico: embora tenha como objeto a arte grega, e em particular a representação do corpo entre os gregos, pode ser lido como mais uma das “artes poéticas” em que a autora explicita algumas noções fundadoras da sua própria poesia.

Sophia colaborou na revista Cadernos de Poesia e aí fez sólidas amizades, nomeadamente com Ruy Cinatti e Jorge de Sena (foi recentemente editada a correspondência trocada com este último entre 1959 e 1978). A primeira série dos Cadernos saiu em Lisboa entre 1940 e 1942, tendo por organizadores Tomaz Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti. Sob o lema “A Poesia é só uma”, repetido no limiar de cada número ao longo das três séries, a revista defendeu a vocação ecuménica da Poesia (com p maiúsculo), sublinhou a independência do ideal estético relativamente a escolas ou partidos e admitiu eclecticamente a colaboração de artistas provenientes dos mais diversos quadrantes.

Data de 1944 o primeiro volume poético de Sophia, intituladoPoesia. Editado no ano em que autora completou vinte e cinco anos, mas incluindo alguns poemas escritos ainda no final da adolescência, Poesia é um livro inaugural a vários títulos. Antes de mais, pelas marcas de intenso e juvenil entusiasmo vital que nele encontramos (coexistindo, todavia, com um lado noturno e decetivo). Logo o poema de abertura nos fala desse entusiasmo, situando-o no plano dos sonhos e da sua força performativa: “Apesar das ruínas e da morte,/ Onde sempre acabou cada ilusão,/ A força dos meus sonhos é tão forte,/Que de tudo renasce a exaltação/ E nunca as minhas mãos ficam vazias”. Algumas páginas adiante, o poema “Pudesse eu” é igualmente a expressão duma apetência pela vida e dum desejo de disponibilidade total para a viver, expressão tanto mais intensa quanto se resume numa síntese de quatro versos: “Pudesse eu não ter laços nem limites/ Ó vida de mil faces transbordantes/ Pra poder responder aos teus convites/ Suspensos na surpresa dos instantes”.

Poesia é também um livro de estreia pela forma autorreflexiva como regista a procura dum caminho poético. Se nos primeiros versos do poema “Tudo” esse caminho é ainda um tanto indefinido, nos últimos de “O jardim e a casa” ele é vislumbrado com mais nitidez: “Trago o terror e trago a claridade,/ E através de todas as presenças/ Caminho para a única unidade”. Mas no poema “As fontes”, sem dúvida um dos mais inteiros e exatos deste volume, encontramos já um rumo poético bem vincado. Há nele uma promessa de claridade e de plenitude, e, de forma projetiva, esboça-se uma conceção essencialista da poesia como desocultação ou desvelamento, como regresso a uma verdade antiga do ser, que se tornará um dos grandes eixos da obra poética de Sophia.

A noite é uma presença muito forte neste primeiro livro de versos e será um motivo constante em toda a obra, inclusivamente nos contos para crianças. São reveladores títulos como “Noite”, “Luar”, “O jardim e a noite”, “Noite das coisas”, “Noites sem nome”, “Noite de abril” e “Ó noite”, sinalizando uma poesia que recupera, ainda que com modulações próprias, o tópos da vivência noturna do poeta, de larga tradição literária; em Sophia, essa vivência ora exalta a fantasmagoria e o mistério, ora se maravilha com a beleza que a noite traz consigo (sendo o adjetivo “brilhante” um dos preferidos para a qualificar), ora está ligada a um desejo de fuga ou evasão em que ecoa a ânsia mallarmeana de “fuir, là-bas fuir”, ora permite o reencontro do eu consigo mesmo no silêncio e na solidão, como no poema “O jardim e a noite”.

O volume Poesia é, por último, um livro inaugural por conter, neste mesmo poema, três versos que modelarmente definem uma questão central na obra de Sophia, a saber, a relação entre poesia e magia. Esses três versos são os seguintes: “Palavras que eu despi da sua literatura,/ Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,/ De fórmulas de magia”. Pode dizer-se que constituem a primeira arte poética de Sophia e a mais importante deixa para os livros subsequentes. De facto, a imagem do poeta possesso, com a sua componente órfica, será largamente textualizada nos catorze volumes de poesia publicados entre 1944 e 1997 (cf., em especial, as “Artes poéticas” em que a autora descreve a emergência do poema), bem como nos Contos Exemplares (veja-se o conto “Homero”, que representa de forma alegórica, através do encontro entre a criança e o vagabundo, a descoberta da poesia na sua forma mais pura e primitiva). Desenha-se, também, na obra de Sophia um retorno às conceções essencialistas da linguagem que postulam o princípio de concreção entre o verbum e a res. É na identificação do verbum com a res que reside a força mágica da linguagem, sendo a nomeação (recorde-se o título O Nome das Coisas) uma forma encantatória de restituir às coisas a sua realidade, o seu ser. A poesia regressa, assim, à sua vocação original de injunção do espírito, e projeta-se como uma religação, uma “participação no real”, uma união sagrada entre o homem e a natureza.

Depois do casamento, em 1946, com Francisco Sousa Tavares – advogado, jornalista e politico – , a poesia de Sophia tornou-se mais interveniente e atenta às questões sociais do seu tempo. Em Livro Sexto Dual, nomeadamente, surge carregada de revolta perante a tirania, a injustiça e a corrupção, com momentos de grande força apelativa, como “Pranto pelo dia de hoje”, “Exílio” e “O velho abutre”, entre outros. Idênticas preocupações estão presentes no volumeContos Exemplares (1962), em cuja dedicatória se lê: “Para o Francisco, que me ensinou a coragem e a alegria do combate desigual”, e onde a autora alia um sentido de intervenção politica à sua mundividência humanista cristã. Paralelamente, Sophia teve uma atuação cívica relevante antes e depois do 25 de Abril, na oposição ao regime de Salazar e na defesa das liberdades: foi cofundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores e, após a Revolução, deputada à Assembleia Constituinte.

Foi distinguida com o Prémio Camões em 1999, o Prémio Max Jacob de Poesia em 2001 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana em 2003.

A extensa obra que nos legou reparte-se pelos domínios da poesia, da ficção, do conto para crianças, do ensaio, do teatro e, last but not least, da tradução (com magníficas versões de textos de Eurípides, Shakespeare, Claudel e Dante).

Bibliografia ativa:

Poesia: Poesia, Coimbra, ed. Da Autora, 1944; Dia do Mar, Lisboa, Edições Ática, 1947; Coral, Porto, Livraria Simões Lopes, 1950; No Tempo Dividido, Lisboa, Guimarães Editores, 1954; Mar Novo, Lisboa, Guimarães Editores, 1958; O Cristo Cigano, Lisboa, Minotauro, 1961; Livro Sexto, Lisboa, Livraria Morais Editora, 1962;Geografia, Lisboa, Ática, 1967; Dual, Lisboa, Moraes Editores, 1972;O Nome das Coisas, Lisboa, Moraes Editores, 1977; Navegações, Lisboa, IN-CM, 1983, Ilhas, Lisboa, Texto Editora, 1989; Musa, Lisboa, Editorial Caminho, 1994; O Búzio de Cós e Outros Poemas, Lisboa, Editorial Caminho, 1997.

Prosa: Contos Exemplares, Lisboa, Livraria Morais Editora, 1962;Histórias da Terra e do Mar, Lisboa, Edições Salamandra, 1984.

Contos para crianças: A Menina do Mar, Lisboa, Ática, 1958; A Fada Oriana, Lisboa, Ática, 1958; A Noite de Natal, Lisboa, Ática, 1959; O Cavaleiro da Dinamarca, Porto, Figueirinhas, 1964; O Rapaz de Bronze, Lisboa, Minotauro, 1965; A Floresta, Porto, Figueirinhas, 1968; A Árvore, Porto, Figueirinhas, 1985.

Teatro: O Bojador, Lisboa, 2ª ed., Editorial Caminho, 2000 (1ª ed. s/d.); O Colar, Lisboa, Editorial Caminho, 2001.

Ensaio: O Nu na Antiguidade Clássica, Lisboa, 3ª ed., Editorial Caminho 1992 (1ª ed., 1975).

Traduções: A Anunciação a Maria (Paul Claudel), Lisboa, Editorial Aster, 1960; O Purgatório (Dante), Lisboa, Minotauro, 1962; Muito Barulho por Nada (Shakespeare), 164 (inédito); Hamlet (Shakespeare), Porto, lello & Irmão Editores, 1987; Quatre poètes portugais – Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Paris, P.U.F. e Fundação Calouste Gulbenkian – Centre Culturel Portugais, 1970; Medeia (Eurípides), s/d. (inédito).

Alguma bibliografia passiva:

Eduardo Prado Coelho, “O real, a aliança e o excesso na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen”, in A Palavra sobre a Palavra, Porto, 1972; Id., “A lírica e a lógica”, Colóquio/Letras, nº 57, Lisboa, 1980; Maria de Lourdes Belchior, “Itinerário poético de Sophia”,Colóquio/Letras, nº 57, Lisboa, 1980; Fiama Hasse Pais Brandão, “O triplo nome Sophia”, in A Phala – Um Século de Poesia, Lisboa, 1988;Letras e Letras, nº 47, Porto, 1991, dossier Sophia de Mello Breyner Andresen, pp. 7-14; Silvina Rodrigues Lopes, Poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, apresentação, critica, selecção e sugestões para análise literária, Lisboa, 1989; Clara Crabbé Rocha,Os “Contos Exemplares” de Sophia de Mello Breyner, Coimbra, 2ª ed., 1980; Id., “Sophia de Mello Breyner Andresen: poesia e magia”, in O Cachimbo de António Nobre e Outros Ensaios, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003; Maria Alzira Seixo, “Histórias da Terra e do Mar”, Colóquio/Letras, nº 87, Lisboa, 1985.

 

Videoclipe: A Desumanização, por Valter Hugo Mãe interpretado por Márcia, Camané e Dead Combo

Videoclipe: A desumanização

No filme “O Sentido da Vida”, de Miguel Gonçalves Mendes, sete compositores foram convidados para elaborar temas que reflitam as mundividências de cada um dos sete personagens, para que funcione ao longo do documentário como uma espécie de coro de tragédia grega que faz progredir a narrativa. Todos os temas partem das entrevistas preparatórias que o realizador fez a cada um dos personagens.

Para o escritor Valter Hugo Mãe e o seu poema “Contabilidade”, Márcia, autora do álbum “Casulo”, foi convidada para construir um tema com uma melodia cuidadosamente preparada e interpretada pelos Dead Combo, banda formada por Pedro Gonçalves e Tó Trips, conhecidos sobretudo pelas suas músicas que misturam influências do fado e do rock, trilhas sonoras de westerns e temas regionais da América do Sul e África. A Márcia e aos DeadCombo junta-se também o fadista Camané, uma das principais vozes do fado em Portugal.

POEMA CONTABILIDADE

venho para te cortar os
dedos em moedas pequenas e
com elas pagar ao coração o
mal que me fizeste

*

o pior amor é este, o que já é
feito de ódio também. o pior amor
é este, o que já é feito de ódio também,
o pior é o amor é este, o que
já é feito de ódio também

Valter Hugo Mãe

A Desumanização, de Valter Hugo Mãe

Reunião: 10 novembro 2017

O romance de Valter Hugo Mãe é uma verdadeira declaração de amor à Islândia.

Há na beleza feroz da paisagem islandesa algo de desolação, de abandono, de inevitável solidão. E isso transmite-se sem fim a quem nela vive. Resta aprender a viver com isso, aprender a transformar a escuridão em paciente espera, as crateras fumegantes em entranhas de dragões antigos, as enormes montanhas de gelo em gigantes que olham por nós, os rios indomáveis em serpentes benignas, os prados queimados pelo gelo e pelo vento em charnecas floridas onde pastam ovelhas, e tratar os negros abismos como se fossem as bocas silenciosas de deuses. Há que saber que, naquela ilha, a água, a pedra, o vento e o fogo são habitados por forças vitais. E é mesmo assim que tudo isto surge no mais recente romance de Valter Hugo Mãe (n. 1971), A Desumanização, cuja acção tem lugar na Islândia. O autor conseguiu passar para a escrita, com uma notável e singular sensibilidade poética, o avassalamento provocado por aquela paisagem geologicamente igual à dos “dias do começo do mundo”. Uma personagem, explicando a Islândia à filha, diz: “Não te aproximes demasiado das águas, podem ter braços que te puxem para que morras afogada. Não subas demasiado alto, podem vir pés no vento que te queiram fazer cair. Não cobices demasiado o sol no Verão, pode haver fogo na luz que te queime os olhos. Não te enganes com toda a neve, podem ser ursos deitados à espera de comer. Tudo na Islândia pensa. Sem pensar, nada tem provimento aqui.”


Valter Hugo Mãe deu novas roupagens a elementos da mitologia nórdica, fundindo-os com outros de carácter contemporâneo. Numa atmosfera dominada pelos elementos, ferozes e por vezes opressivos, de uma natureza não subjugada pelo homem, tão característica de um tempo que apesar de actual nos remete sempre para a memória lírica do mito, para um tempo dominado por uma sombria solidão, o autor ergue uma história de amor e de redenção numa aldeia perdida num fiorde no Noroeste da ilha.


O lugar são duas dezenas de casas e a igreja, um sítio onde parece que tudo foi negado aos seus habitantes, menos o amargo sofrimento. Halldora é a irmã “menos morta” de duas gémeas (Sigridur está enterrada). Vive com os pais, um pescador e uma mãe perturbada que se corta na pele para que essa dor faça esquecer outras mais profundas. Einar é o “tolo” da aldeia, vive num quarto na igreja (arranjado por outro homem que “havia anos o tentavam domesticar”); lembra-se ainda de quando era como os outros rapazes, mas isso foi antes de um estranho acidente acontecido com o pai. Na inocência da infância de Halldora nasce o amor desta por Einar — que se torna no fio condutor da narrativa. Há ainda mais duas ou três personagens que, à vez, vão contribuindo para manter a acção viva até ao epílogo.


Valter Hugo Mãe faz um sábio uso da cultura islandesa — não apenas da sua enorme tradição literária épica — ao integrar no romance, com grande mestria, referências à culinária tradicional, à pintura (sobretudo à obra de Jóhann Sveinsson Kjarval) e à música (é subtil a evocação dos hinos religiosos compostos por Hallgrímur Pétursson, poeta do século XVII); no campo literário é sobretudo notória, mais do que qualquer outra, a influência do “sopro poético” de Thor Vilhjálmsson (Arde o Musgo Cinzento, Cavalo de Ferro, 2012), o seu gosto pela prosopopeia, a sua maneira tão singular de descrever como o homem islandês se relaciona com as forças da natureza, primordiais e misteriosas, “como um veleiro que se move entre as costas do mito”, usando as palavras do poeta Ted Hughes. “Contava-se que, num tempo inicial, voavam dragões famintos que devoravam tudo quanto lhes adoçasse as entranhas zangadas. Contava-se que, devastadas as coisas todas, os dragões haviam perdido a capacidade de voar e haviam parado exaustos um pouco por toda a parte. Arfavam e empederniam. Dizia-se que, de tão grandes e espessas peles, haviam radicado como montanhas de boca aberta.”


Todo o romance é atravessado pela presença de deus, que se revela sempre através da beleza da poesia ou da natureza. Não é o Deus de nenhuma das religiões monoteístas (apesar de algumas referências à Igreja), mas uma estranha combinação entre animismo e as ideias de Espinosa. É o deus silencioso que vive nas coisas, que só fala através da poesia; o homem é apenas a “carne do poema”, um ser sempre à espera do fim, na desolação da sua existência, porque “tudo na vida tem a ver com a morte”.


Em A Desumanização — que é, provavelmente, o melhor romance de Valter Hugo Mãe —, a linguagem, a maior virtude do livro, é cuidada e alegórica, onírica e consistente, sem se deixar cair em exageros desnecessários que, do ponto de vista estético, poderiam estragar o conjunto. As personagens, tão típicas do universo literário do autor (enjeitados, desvalidos ou diminuídos aos olhos da sociedade), abandonam desta vez alguma da sua bondade para, por fim, experimentarem uma verdadeira epifania.

(https://www.publico.pt/2013/09/18/culturaipsilon/critica/a-boca-silenciosa-de-deus-1658456)

Pepetela

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos (Pepetela) nasceu em Benguela, a 29 de Outubro de 1941. Fez os seus estudos primários e secundários em Benguela e Lubango, partindo em 1958, para Lisboa para fazer o curso superior. Frequentou o Instituto Superior Técnico, tendo nessa altura participado em actividades literárias e políticas na Casa dos Estudantes do Império. Por razões políticas em 1962, saiu de Portugal para Paris, França, onde passou seis meses, seguindo para a Argélia, onde se licenciou em Sociologia e trabalhou na representação do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e no centro de Estudos Angolanos, que ajudou a criar.

“Quando regresso a Benguela, tenho sempre a sensação de reentrar no ventre materno. Começa pelo ar. Cada terra tem o seu ar, com consistência própria e sobretudo cheiros particulares. Sinto isso ao chegar, sendo mais acentuado se a viagem é feita de avião, em que não há etapas de transição para adaptação dos sentidos às mudanças… Depois há a cidade e as gentes.” Palavras de Pepetela sobre a sua cidade natal.

Em 1969 parte para a região de Cabinda participando directamente na luta armada como guerrilheiro e como responsável pelo sector da educação. Adoptou o nome de guerra de Pepetela, que significa pestana na língua Umbundo, e que mais tarde viria a utilizar como pseudónimo literário. Em 1972 é transferido para a Frente Leste desempenhando as mesmas funções até 1974. Integrou a primeira delegação do MPLA que chegou a Luanda em Novembro de 1974.

Desempenhou os cargos de Director de Departamento de Educação e Cultura e do Departamento de Orientação Política. Foi membro do Estado Maior da Frente Centro. De 1975 a 1982 foi vice-ministro da Educação, passando posteriormente a leccionar sociologia na Universidade de Luanda.

“A terra que a boca de Alexandre Semedo morde lhe sabe bem. É o cheiro do barro molhado pelo orvalho de madrugada e o som longínquo de badalos de vacas na vastidão do Mundo. Leva esse sabor o cheiro da terra molhada para cima da pitangueira, onde fica a baloiçar para sempre.” In: Pepetela. Yaka. 1985, p.395.

É membro fundador da União dos Escritores Angolanos. Grande parte da sua obra literária foi publicada após a independência de Angola, sendo alvo de inúmeros estudos em várias universidades e instituições de ensino em Angola e noutros países. As suas obras foram publicadas em Angola, Portugal, Brasil, além de estarem traduzidas em quinze línguas.

“É a escrita mestiça de um dos maiores nomes da literatura africana, de um dos melhores criadores de expressão portuguesa. Uma escrita grande na beleza estética, imensa no sentido comunicacional, cuidada na forma rigorosa, contida, e libertadora numa sempre renovada proposta-activa de fazer do pensamento, hoje, a arma principal contra todas as moléstias sociais, políticas e culturais. Guerrilheiro que foi, Pepetela sabe definir os tempos e as circunstâncias. Por isso mesmo, guerrilheiro continua, guerrilheiro, todavia, que usa as palavras para um combate que tem de travar-se nos campos do conhecimento e da reflexão.” In: Maria Augusta Silva, Diário de Notícias.

Foi galardoado com os seguintes prémios: Prémio Nacional de Literatura (1980) pelo livro “Mayombe”; Prémio Nacional de Literatura (1985) pelo livro “Yaka” Prémio Especial dos Críticos de São Paulo (1993 – Brasil) pela obra “A Geração da Utopia”; Prémio Camões (1997) pelo conjunto da sua obra; Prémio Prinz Claus (1999) pelo conjunto da sua obra.

http://www.ueangola.com/bio-quem/item/53-pepetela

O planalto e a estepe, Pepetela

Reunião: 3 outubro 2017

Os olhos dele continham o céu do Planalto,
Na Huíla, Serra da Chela, Dezembro, quando o azul mais fere.
Nos olhos dela estavam gravadas suaves ondulações da Estepe
mongol. Tons sobre o castanho.
Entremo
s primeiro no azul.

A minha vida se resume a uma larga e sinuosa curva para o amor”, assim começa a viagem do livro. Na infância prodigiosa na Huíla, um protagonista angolano de nome Júlio, branco e de olhos azuis, descendente de colonos madeirenses, começa a aperceber-se das estranhas categorias que sustentavam as mentalidades do tempo colonial. De como, onde ele via apenas pessoas, amigos, sem distinção de cor, as questões raciais eram predominantes. Assim como a diferença entre colono e colonialista evidenciada nos “que querem que os africanos sejam sempre inferiores, sem direitos de gente na sua própria terra.” Bom aluno, prossegue estudos para “doutor” numa Coimbra húmida e aborrecida. É-lhe atribuída posteriormente uma bolsa para Moscovo onde estuda economia lutando pela “emancipação dos povos do mundo”, imbuído no espírito de solidariedade afro-asiática, internacionalista e anti-imperialista, fortalecendo amizades entre camaradas africanos, na projeção de um mundo socialista e uma Angola livre.

É quando cai perdido de amores por uma estudante mongol, Sarangerel, filha do Ministro da Defesa da República da Mongólia, cuja vida é vigiada por uma suposta colega que informa o severo pai com relatórios pormenorizados, que os problemas iniciam. O regime tem rigorosas normas que impossibilitam relacionamentos com estrangeiros, quanto mais sendo o caso de um africano provindo de um país colonizado. No entanto, a rapariga engravida e o casal acha-se numa tal complicação, lutando em vão por todos os meios para poderem ficar juntos.

Na sequência de uma passagem por Argel e pelo Congo Brazaville, Júlio regressa a Angola para combater contra o colonialismo português, presencia actos com os quais não concorda mas preserva, enquanto pode, os seus princípios. Já o seu amigo congolês Jean-Michel, morre antes de ver ou de participar na degeneração do sonho socialista. Assistimos à vertigem e freqüência com que perde amigos, por várias e tristes razões. O narrador não se priva de apontamentos críticos, como a fuga dos cérebros e o esvaziamento da dignidade que sociedades oprimidas implicam. Males diagnosticados em reflexões como esta: “poucos hoje em dia viveram as experiências de colonizados ou de escravos, que significa exatamente a não existência, o terem sido de repente apagados da vida, da memória, transmutados em não-seres humanos.”

Pepetela refere em entrevistas que há coincidências auto-biográficas, avançando que a personagem Júlio é baseada num amigo da sua adolescência, com um percurso semelhante ao seu, com quem estudou no Lubango e que o acompanhou para Portugal (Lisboa e Coimbra), tendo o autor partido daí para França e o amigo para Marrocos e Moscovo, dando-se um reencontro entre eles mais tarde em Argel.

Com uma clareza transversal à estrutura narrativa, e a descrição ritmada que não dispensa a habitual ironia, o narrador (o já referido protagonista) põe a nu uma série de incongruências da ideologia da época, na sua componente internacionalista, de se aplicar a martelo a cartilha marxista, as lutas de poder e a pressão psicológica, “em tempos de Guerra Fria paranóica e de espionagem exacerbada”. Revela um olhar implicado, de quem viveu por dentro estes conflitos que geraram muitos sonhos e lutas mas também muitos erros, nem sempre reconhecidos, a par de frases atenuantes de um contexto meio delirante como “as discordâncias não existem em certo tipo de sociedades ou regimes”.

Se o romance poderá parecer enveredar por caminhos trilhados de desencanto e nostalgia, ressurge a possibilidade do reencontro do amor nunca esquecido. Nisto, parece desenhar-se a defesa de que a felicidade pessoal e os sentimentos pelos outros, em contextos de aceleração e reviravolta da História, são afinal mais perenes do que as flutuações ideológicas e a difícil mas desejada coerência nas práticas políticas. “Quando a pretensa revolução desmoronou, assistindo eu a toda a espécie de oportunismos, de ambições escondidas, de traições, a esperança louca nesse amor me deu força de desejar sobreviver.” Esta é estória de um grande amor em Moscovo, de promessas roubadas a uma geração lutadora e agente da sua própria traição, memórias que merecem ser reavidas para percebermos também as complexidades da História pós-colonial.

(http://www.buala.org/pt/a-ler/amor-em-tempos-de-colera-recensao-a-o-planalto-e-a-estepe-de-pepetela)

 

A rainha Ginga, de José Eduardo Agualusa

A rainha Ginga : e de como os africanos inventaram o mundo.

Reunião: 24 março 2017

Personalidade originalíssima da história de África e do Mundo, ao mesmo tempo arcaica e de uma assombrosa modernidade, a rainha Ginga tem fascinado gerações, desde o Marquês de Sade (que via nela um exemplo de luxúria selvagem) até às feministas afroamericanas dos nossos dias. Neste romance, José Eduardo Agualusa dá-nos a ver, através dos olhos de um dos secretários da rainha, um padre pernambucano em plena crise de fé, o agitado século em que esta viveu. Misturam-se nestas páginas personagens reais – ainda que fantásticas -, como o almirante Jol, o pirata com uma perna de pau que conquistou Luanda para a Companhia das Índias Ocidentais, com outras fictícias, ainda que mais verosímeis do que as primeiras, como Cipriano Gaivoto, o Mouro, um mercenário português ao serviço da rainha Ginga. Se é verdade que Angola tem ainda muito passado pela frente – no sentido de que há tanto passado angolano por descobrir e ficcionar -, também é verdade que este romance nos devolve um dos fragmentos mais interessantes, senão o mais interessante, deste mesmo passado. Perturbador, fascinante e poderoso, este romance de José Eduardo Agualusa é, sem dúvida, um dos momentos mais altos da sua obra.

Rainha Ginga: símbolo de resistência da mulher negra