Livro, de José Luís Peixoto

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Reunião: 17 fevereiro 2017

Sinopse

Este livro elege como cenário a extraordinária saga da emigração portuguesa para França, contada através de uma galeria de personagens inesquecíveis e da escrita luminosa de José Luís Peixoto. Entre uma vila do interior de Portugal e Paris, entre a cultura popular e as mais altas referências da literatura universal, revelam-se os sinais de um passado que levou milhares de portugueses à procura de melhores condições e de um futuro com dupla nacionalidade. Avassalador e marcante, Livro expõe a poderosa magnitude do sonho e a crueza, irónica, terna ou grotesca, da realidade. Através de histórias de vida, encontros e despedidas, os leitores de Livro são conduzidos a um final desconcertante onde se ultrapassam fronteiras da literatura. Livro confirma José Luís Peixoto como um dos principais romancistas portugueses contemporâneos e, também, como um autor de crescente importância no panorama literário internacional.

Crítica a Livro, em Jornal de LetrasPor Miguel Real

Desde a década de 60 que a historiografia do romance português tem provado que não só a forma (a estrutura) ilumina o conteúdo como marca indelevelmente a singularidade de cada narrativa, prestando-lhe um rosto literário específico. Estamos hoje longe, cronológica e teoreticamente, do tempo em que da prisão “António Vale”/Álvaro Cunhal ditava não ter qualquer razão de ser “a objecção de que a sobreposição do conteúdo à forma não é fecunda no ato de criação artística. No próprio processo de criação, como norma para alcançar um nível superior, é válido o princípio – primeiro o conteúdo”, bem como o tempo em que Almeida Faria e Nuno Bragança submetiam o conteúdo narrativo ao primado da forma.

Possivelmente, o novo romance de José Luís Peixoto, Livro, ficará na história da literatura portuguesa como o símbolo máximo da sobredeterminação da forma face ao conteúdo. Com efeito, se o autor tivesse optado por outra organização estrutural, o romance, ainda que com o mesmo conteúdo, seria todo outro, radicalmente outro.

Neste sentido, dando primazia à forma, Livro é, espantosamente, uma síntese da história do romance português desde Eça e Camilo.

Primeiro, quando ao conteúdo, é profundamente realista (“a realidade bem observada e a observação bem exprimida”, Eça), narrando a história de uma família desencontrada (sem apelido) e de uma vila (sem nome) portuguesas ao longo de 70 anos do século XX, descrevendo situações típicas do subdesenvolvimento do interior rural, bem como da reacção campesina, emigrando para França, na década de 60.

Segundo, Livro abandona-se, não raro, ao naturalismo (vida de Galopim e do irmão deficiente; mulher lobo na raia entre Portugal e Espanha; a morte da velha Lubélia; a existência diária do Daquele da Sorna…).

Terceiro, com a adolescência de Livro (nome do narrador personagem, não título do romance) em Paris, os “eus” psicológicos, até então profundamente sólidos, dotados de entidade pessoal, estilhaçam-se, multiplicando as pulsões no seu interior (Livro opera uma deriva existencial; Adelaide, sua mãe, divide-se interiormente entre educação portuguesa provinciana e os novos costumes parisienses; Constantino, seu putativo pai, falhado o maio de 68 e a Revolução dos Cravos, esquizofreniza-se, incorporando a figura revolucionária de “Lenine”, tratando o filho por pai e a mulher por mãe). É a pulsão “presencista” (psicologista) do romance português, nomeadamente a multiplicação dos “eus” de O Jogo da Cabra Cega (1934), de José Régio.

Em quarto lugar, criticando o neorrealismo (p. 238), o narrador assume, na segunda parte, o desconstrutivismo das décadas de 60 e de 70, o fragmentarismo, a auto-referencialidade, o pós-modernismo (p.227), a confluência sincrética, por vezes caótica, de estilos, de textos de proveniência diversa (citação amiúde de nomes de autores, listas de livros, inquérito ao leitor…), evidencia o intelectualoidismo narrativo próprio daquelas décadas (grafia de “Heraclito, o Efésio” em grego clássico), o privilégio da conotação face à denotação…

Em quinto lugar, enquanto totalidade romanesca, recupera a categoria de “grande narrativa” (décadas de 80 e 90) como arte de contar uma história com princípio, meio e fim (as vidas de Adelaide e Ilídio).

Assim, Livro estatui-se, tanto estilisticamente quanto ao nível do conteúdo, como um romance resumo da história do romance português de Eça de Queirós a Francisco José Viegas. Parafraseando Pessoa, Livro é uma espécie de novelo narrativo com a ponta virada para fora, puxada a qual se desenrola a nossos olhos a história portuguesa dos últimos 70 anos (Salazar e a Pide; os párocos de aldeia, coniventes com o poder político; a miséria dos campos; os ricos – a família de Dona Milú – e os pobres – a vila inteira, sem esgotos, sem ruas alcatroadas, sem água canalizada; a história da emigração; o 25 de abril e a adesão à Europa; a riqueza de pato-bravo dos emigrantes; as casas de fachada forrada de azulejos de casa de banho…)

De forma circular, automanifestando a génese do narrador e das condições existenciais da narração, operando por vezes um diálogo explícito com o narratário (p.247), substituindo os capítulos clássicos por fragmentos titulados por letras, números e datas, jogando um puzzle de peças soltas unificadas pela consciência do leitor, Livro constitui um magnífico retrato, à entrada do século XXI, do modo de narração de uma história, simultaneamente obedecendo e subvertendo a tirania da cronologia.

História de uma dupla educação (Ilídio e Livro), José Luís Peixoto mantém o seu lirismo singular em Livro, estatuindo a frase entre a racionalidade do realismo descritivo e a emoção do verso poético. Porém, à medida que nos afastamos de Morreste-me e de Nenhum Olhar, suas primeiras narrativas, o lirismo tem vido a perder uma carga hiperbolizante, denotada pela figura da reiteração, amplificando fragmentos de sentido na consciência do leitor, tornando-se pragmaticamente comedido. De qualquer modo, Livro possui a explícita marca do lirismo, com o princípio da subjectividade do narrador, envolvendo e dominando o princípio da objetividade (o realismo). Lexicalmente, assiste-se a confluência entre um vocabulário rural e um vocabulário urbano, e, por vezes, sobretudo nas falas de Cosme da segunda parte, explicita-se o patuá da emigração portuguesa para França.

Se deveras não nos irritasse o prefixo da palavra “pós-modernismo” (uma mera moda literária que preenche a ausência da palavra correta que a todos nos falta para designar a literatura de hoje), estaríamos tentados a classificar Livro como o grande romance do pós-modernismo português. Preferimos, antes, chamar a atenção do leitor para o facto, iniludível, de que, com Livro, se inicia a maturidade literária de um grande escritor.

(http://www.joseluispeixoto.net/7598.html)

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Afirma Pereira, de Antonio Tabucchi

Reunião: 17 janeiro 2017

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Um homem muda. Apesar da idade e do regime. Pereira é jornalista, vive em Lisboa e bebe limonada. Salazar governa.

Afirma Tabucchi que este é um “romance existencial”. Fala de um homem envelhecido que toma consciência da sua passividade. Corria o Verão de 1938 e Pereira, alheio à realidade política da época (ditadura salazarista, guerra civil espanhola e fascismo na Europa), prossegue impávido

É viúvo, dirige a página cultural — em que é o único redactor — de um diário vespertino, “Lisboa”, e fala com a fotografia da mulher. Menu exclusivo: omelete e limonada.

“Afirma Pereira” foi escrito em 1993 e mereceu dois prémios literários italianos no ano seguinte, Via Reggio e Campiello, e o prémio internacional Jean Monet em 1995.

Sendo indiscutivelmente um romance político, a narrativa de Tabucchi não assume um tom panfletário e prende com facilidade a atenção do leitor, pois é-lhe apresentada como uma espécie de testemunho do protagonista, onde a expressão “afirma Pereira” se vai repetindo.

São quatro as personagens que vão induzir a transformação do católico jornalista: dois anti-salazaristas militantes (Monteiro Rossi e a namorada, Marta), um padre (António) e um médico (doutor Cardoso). O protagonista acabará por escrever um artigo de denúncia que transforma o seu futuro. E assim se afirma Pereira.

Embora no momento da criação da obra a direita e Berlusconi ainda não estivessem no poder, Antonio Tabucchi apercebiase já do regresso dos nacionalismos, da xenofobia e do racismo. O romance retrataria assim uma época (1938-43) cujo ambiente teria alguns pontos de contacto com o que se vive na Europa contemporânea (salvaguardadas as devidas diferenças), explicava o autor por alturas do lançamento do livro.

(Por Rita Pimenta)

Para onde vão os guarda-chuvas, de Afonso Cruz

guardachuvasReunião: 20 de maio 2016

O pano de fundo deste romance é um Oriente efabulado, baseado no que pensamos que foi o seu passado e acreditamos ser o seu presente, com tudo o que esse Oriente tem de mágico, de diferente e de perverso. Conta a história de um homem que ambiciona ser invisível, de uma criança que gostaria de voar como um avião, de uma mulher que quer casar com um homem de olhos azuis, de um poeta profundamente mudo, de um general russo que é uma espécie de galo de luta, de uma mulher cujos cabelos fogem de uma gaiola, de um indiano apaixonado e de um rapaz que tem o universo inteiro dentro da boca.
Um magnífico romance que abre com uma história ilustrada para crianças que já não acreditam no Pai Natal e se desdobra numa sublime tapeçaria de vidas, tecida com os fios e as cores das coisas que encontramos, perdemos e esperamos reencontrar.

Podem ver mais no blogue: https://paraondevaoosguardachuvas.wordpress.com/

Vídeo – Machado de Assis: Um Mestre na Periferia

Machado de Assis: um mestre na periferia

Joaquim Maria Machado de Assis é, praticamente, uma unanimidade. Sair ileso das suas obras é uma tarefa quase impossível e sua capacidade de despertar os sentimentos do leitor com seu olhar aguçado não só para sua intimidade, mas para a intimidade da sociedade brasileira da época é elogiada até hoje. O episódio conta a vida do escritor e as duas fases de sua obra, além dos caminhos de sua profissionalização até o ingresso na Academia Brasileira de Letras. Também mostra a visão política de Machado de Assis sobre as transformações da sociedade brasileira.

 

Machado de Assis

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Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839 na cidade do Rio de Janeiro. Neto de escravos alforriados, foi criado em uma família pobre e não pode frequentar regularmente a escola. Porém, devido a seu enorme interesse por literatura, conseguiu se instruir por conta própria. Entre os seis e os quatorze anos, Machado de Assis perdeu sua irmã, a mãe e o pai.

Aos 16 anos, Machado conseguiu um emprego como aprendiz em uma tipografia, vindo a publicar seus primeiros versos no jornal “A Marmota”. Em 1860 passou a colaborar para o “Diário do Rio de Janeiro” e é dessa década que datam quase todas suas comédias teatrais e “Crisálidas”, um livro de poemas.

Em 1869 Machado de Assis casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais sem o consentimento da família da moça, devido à má fama que Machado carregava. Porém, este casamento mudou sua vida, uma vez que Carolina lhe apresentou à literatura portuguesa e inglesa. Mais amadurecido literariamente, Machado publica na década de 1870 uma série de romances, tais como “A mão e a luva” (1874) e “Helena” (1876), vindo a obter reconhecimento do público e da crítica. Ainda na década de 1870, Machado iniciou sua carreira burocrática e em 1892 já ocupava o cargo de diretor geral do Ministério da Aviação. Através de sua carreira no serviço público, Machado de Assis conseguiu sua estabilidade financeira.

A obra literária de Machado era marcadamente romântica, mas na década de 1880 ela sofre uma grande mudança estilística e temática, vindo a inaugurar o Realismo no Brasil com a publicação de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881). A partir de então a ironia, o pessimismo, o espírito crítico e uma profunda reflexão sobre a sociedade brasileira se tornarão as principais características de suas obras. Em 1897, Machado funda a Academia Brasileira de Letras, sendo seu primeiro presidente e ocupando a Cadeira Nº 23.

Em 1904, Machado perde a esposa após um casamento de 35 anos. A morte de Carolina abalou profundamente o escritor, que passou a ficar isolado em casa e sua saúde foi piorando. Dessa época datam seus últimos romances: “Esaú e Jacó” (1904) e “Memorial de Aires” (1908). Machado morreu em sua casa no Rio de Janeiro no dia 29 de setembro de 1908. Seu enterro foi acompanhado por uma multidão e foi decretado luto oficial no Rio de Janeiro.

Seus principais romances são: “Ressurreição” (1872), “A mão e a luva” (1874), “Helena” (1876), “Iaiá Garcia” (1878), “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), “Quincas Borba” (1891), “Dom Casmurro” (1899), “Esaú e Jacó” (1904) e “Memorial de Aires” (1908). Além dessas obras, Machado de Assis possui uma extensa bibliografia que abrange poemas, contos e peças teatrais.

(http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/literatura/dom-casmurro-resumo-obra-machado-assis-698985.shtml)

Dom Casmurro, de Machado de Assis

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Reunião: 19 abril 2016

Vídeo com animação da obra

Narrado em primeira pessoa, Dom Casmurro foi publicado em 1900, embora a data da edição seja de 1899. Essa obra continua a trajetória de renovação iniciada com a publicação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 1881. O emprego de capítulos curtos, da já conhecida ironia, do pessimismo amargo e de técnicas narrativas renovadoras, como as digressões, metalinguagem e intertextualidades, mantêm-se também nesse romance.

Em Dom Casmurro, a narrativa exerce a função de uma pseudo-autobiografia do protagonista, Bentinho. Dessa forma, a memória servirá de vínculo entre a narrativa presente e a suposta verdade dos fatos, que a distância entre o passado e o presente teimou algumas vezes em nublar para o narrador. Esse resgate pela memória a partir do presente (flash-back) é, como acabamos de dizer, falho, já que o tempo incumbiu-se de distanciar os fatos do momento da escrita. Com isso, a narrativa não poderia seguir um caráter linear, nascendo fragmentada, digressiva.

Esse processo de escrita tem a nítida intenção de atribuir ao leitor o papel de explicar a maior dúvida de Bentinho: teria sido traído pela esposa com seu melhor amigo, Escobar, ou não? Ao final da narrativa, percebemos que carregamos a mesma dúvida de Bentinho, pois não conseguimos provar a culpa ou inocência de Capitu. Essa dúvida persiste porque o narrador tanto fornece indícios da existência do adultério quanto da pureza do comportamento da esposa. Entretanto, ele procura de todo modo, através de sua narrativa, convencer-nos da culpa de Capitu, o que terminaria por justificar sua decisão de abandonar mulher e filho na Suíça.

A obra significou, por mais de 60 anos, mais um exemplo de adultério feminino explorado na literatura realista. Entretanto, em 1960, a professora americana Helen Cadwel propôs a sua releitura, apontando Bentinho, e não a esposa, Capitu, como o problema central a ser desvendado. Dom Casmurro é um livro complexo e cada leitura origina uma nova interpretação. Machado de Assis faz no romance um fato inacreditável em sua narrativa: Ele cria um narrador que afirma algo (ou seja, diz que foi traído) e o leitor não consegue decidir-se se ele está mentindo ou não.

Desde então, o romance vem sido lido e relido, com novas chaves que cada vez mais comprovam tratar-se de um enigma elaborado pelo autor. Dentre as tais chaves destaca-se a não-confiabilidade do narrador (Bentinho), envolvido por sua personalidade ciumenta, invejosa, cruel e perversa aponto de destruir aqueles que ama por uma suspeita que o leitor atento percebe ser no mínimo discutível.

Ao evocar o passado, Bentinho (D. Casmurro), que é o narrador-personagem, coloca-se em um ângulo neutro de visão. Dessa maneira pode repassar, sem contaminar, episódios e situações, atitudes e reações. Simultaneamente, opõe a esse ângulo de reconstrução do passado, o ângulo do próprio momento da evocação, marcado pelo desmoronamento da ilusão de sua felicidade. Dessa forma, temos uma dupla visão da experiência, reconstituída em termos de exposição e análise.

A visão esfumaçada do adultério é intencional. Dele o leitor só tem provas subjetivas, a partir da ótica do narrador, que nele acredita.

Ao adotar um narrador unilateral, fazendo dele o eixo da forma literária, Machado de Assis se inscreveu entre os romancistas inovadores.

Estrutura da obra – O romance Dom Casmurro é dividido em 148 capítulos de diversas dimensões, predominando os curtos (técnica já ultilizada em Memórias Póstumas de Brás Cubas).

Ação – O enredo da obra não é dinâmico, já que predomina o elemento psicológico. A narrativa é digressiva, ou seja, interrompida todo o tempo por fugas da linearidade para acrescentar pensamentos ou lembranças fragmentadas do narrador.

Foco narrativo – O romance é narrado em primeira pessoa, por Bento Santiago, que escreve a história de sua vida. Dessa forma o romance funciona como uma pseudo-biografia de um homem já envelhecido que parece preencher sua solidão atual com a recordação de uma passado que nunca se distancia verdadeiramente, porque -foi marcado pelo seu sofrimento pessoal.

Tempo – O tempo é cronológico, cuja primeira referência é o ano de 1857, no momento que José Dias sugere a D. Glória a necessidade de apressar a ida de Bentinho para o seminário. Em 1858, Bentinho vai para o seminário. Em 1865, Bentinho e Capitu casam-se. Em 1872, Bentinho e Capitu separam-se. Aliás, se observarmos melhor essas datas, veremos que entre a ida de Bentinho para o seminário e o casamento decorrem sete anos, entre este último e a separação mais sete anos. Se tomarmos em conta essa “suposta coincidência”, podemos perceber que cada período forma um ciclo completo: ascensão, plenitude e declínio ou morte do sentimento amoroso.

Espaço – Toda a ação narrativa passa-se no Rio de Janeiro. O narrador faz-nos acompanhar sua trajetória pelos bairros e ruas do Rio, desde o Engenho Novo, onde -escreve sua obra, até a Rua de Matacavalos, onde passou sua infância e conheceu Capitu. É interessante lembrar, que as duas casas amarram-se novamente num círculo perfeito, já que a do Engenho Novo foi construída à semelhança da casa de Matacavalos. A tentativa do narrador de atar as duas pontas da vida parece funcionar não apenas na ligação entre o presente e o passado, mas também na própria estrutura da obra, como vimos na introdução dessa parte.

(http://www.passeiweb.com/estudos/livros/dom_casmurro)

As aventuras de João sem Medo

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Reunião: 11 março 2016

Sinopse

João Sem Medo habita na aldeia Chora-Que Logo-Bebes, cujos habitantes vivem presos à tradição de que tanto se orgulham: chorar de manhã à noite. Um dia, o nosso herói decide saltar o Muro que protege a aldeia da Floresta Branca, local onde «os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam estalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos». Tem assim início uma viagem surpreendente, na qual João Sem Medo se irá cruzar com bichas de sete cabeças, gigantes de cinco braços, fadas, bruxas, animais que falam, e ainda com o mítico Príncipe das Orelhas de Burro. História fantástica que recorre ao imaginário mágico, por vezes de inspiração surrealista, este romance de José Gomes Ferreira é um prodígio de efabulação e engenho narrativo. Uma obra intemporal que continua a arrebatar tanto adolescentes como adultos.         (http://stoneartportugal.blogs.sapo.pt/as-aventuras-de-joao-sem-medo-e-uma-135838)

Enquadrado no Plano Nacional de Leitura, Aventuras de João sem medo é um excelente e surpreendente conjunto de histórias em torno de um rapaz que parte por terras encantadas, esperando todos os habituais clichés das aventuras com fadas e monstros com um espírito crítico que confere à narrativa um interessante aspecto cómico, muitas vezes em tom de comentário social ou político.

João sem medo nasceu na aldeia Chora-Que-Logo-Bebes, um lugar onde todos os habitantes passam os dias a chorar por tudo e por nada. Cansado desta forma de viver, João jurou não ter medo de nada (ou pelo menos não o mostrar) e decide-se a partir em aventura apesar dos receios generalizados em o deixar passar a fronteira.

É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir

Com esta frase inicia-se a grande aventura de João que logo tem de fazer uma escolha entre o caminho a seguir: o asfaltado ou o de pedregulhos. O primeiro, caminho de fácil pavimento, conduz à felicidade, mas no final terá de perder a cabeça (literalmente). Já o outro prevê-se difícil, mas ao menos irá manter o cérebro no lugar.

Esta é apenas a primeira de muitas escolhas que João terá de fazer e que o irão conduzir por caminhos inusitados onde terá de demonstrar as suas características bondosas e a coragem – não de forma inocente. João espera todas estas provas, sabendo que fazem parte das grandes aventuras mágicas e vai fazendo pequenas tiradas irónicas ou insolentes:

O descabeçado, de cigarrilha na boca do estômago, expôs-lhe então com paciência burocrática:

Ninguém pode seguir o caminho asfaltado que leva a Felicidade Completa sem se sujeitar a este programa bem óbvio. Primeiro: consentir que lhe cortem a cabeça para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas. Segundo e último: trazer nos pés e as mãos correntes de ouro…

João Sem Medo ouriçou-se numa reacção instintiva:

Nunca! Bem se vê que não tens a cabeça no seu lugar.

(…)

Deixá-lo. Prefiro tudo a viver sem cabeça. Nem calculas a falta que ela me faz.

Este episódio inicial demonstra facilmente a dupla leitura que a maioria destas aventuras permite, metáforas de um comentário social e político, muitas deles retratando aspectos do regime Salazarista. Entre príncipes que se julgam demasiado belos para contemplar, cidades viradas do avesso e fadas travestis, João Sem Medo vai resistindo a cada aventura até que se decide voltar a casa – mas só metade!

(https://acrisalves.wordpress.com/2015/07/27/aventuras-de-joao-sem-medo-jose-gomes-ferreira/)