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Os vivos, o morto e o peixe frito, de Ondjaki

Reunião: 19 maio 2017

O humor e o assunto sério em “os vivos, o morto e o peixe-frito” de Ondjaki

ondjaki

Criado originalmente para uma emissão radiofônica transmitida pela RDP África no âmbito do África Festival 2006, “os vivos, o morto e o peixe-frito”[1] é apresentado ao leitor, utilizando aqui das palavras de Abderrahmane Ualibo [2] como um “exercício literário sobre aparência de texto teatral”, este exercício através da sátira trata sobre a vida dos imigrantes africanos em Portugal. A sátira começa com a denominação do autor para o prédio onde as personagens se conhecem: Migrações Com Fronteiras, para quem não sabe o atual SEF- Serviço de Estrangeiros e Fronteiras era denominado Migração Sem Fronteiras, com a pequena mudança de “sem” para “”com” o autor nos mostra como as fronteiras estão bem presentes. Enquanto esperam pelo atendimento formam uma verdadeira “confraternização palopiana”, termo utilizado para demonstrar a união, os conflitos, as variedades de culturas e as especificidades linguísticas deste verdadeiro mosaico de urgências, problemas em comum e afetos que se formam na condição de imigrantes em terras portuguesas. Obrigadas a adaptarem-se para sobreviver destacamos dentre as personagens um bom exemplo J.J. Mouraria, que reflete a tentativa de adaptabilidade linguística, dono de um português muito específico, consultor de dicionários, mas também um tipo de “bom malandro” que consegue ganhar na conversa a simpátia dos demais:

JJMOURARIA:

Atendo pelo internacional nome de Jota Jota Mouraria, originário barrigalmente das terras de S. Tomé e Príncipe, mas já vindo ao mundo nesta capital lisboeta de frios e tanta africanidade. É verdade: Jota Jota Mouraria… (pausa) O “Jota Jota” é de raízes familiares, o “Mouraria” é de afinidades urbanas, muito prazer minha senhora…?

MANA SÃO:

Conceição, mais conhecida por MANA SÃO, e este (aproxima-se de TITONHO) é o seu António, mais conhecido por TITONHO.

JJMOURARIA:

E as coordenadas geográficas, já agora?

TITONHO:

Eu sou de cabo-verde, Santo Antão e a minha prima (olhando para o segurança) Mana São, é do sul de Angola, província de Benguela.

JJMOURARIA:      

Verdadeiramente encantado por esta repentina confraternização palopiana. (pausa) Então o amigo é um “morabezístico juramentado”, e a prima Mana São vem das correntes frias de Benguela… Que maneira mais optimística de começar o dia, folgo muito em vê-los aqui nesta nossa cidade afro-europeia.

O pano de fundo da história tem a 1ª participação de Angola em Mundial de Futebol, confrontando justamente Portugal, com as personagens oriundas de diversas partes “palopianas” que se juntam dentro de um pequeno apartamento para tentar acompanhar o jogo, tarefa que se mostra no mínimo invulgar quando a única maneira de acompanhar o resultado é através do rádio sem pilhas do morto que mesmo em sua condição mortuária ainda é um fanático por futebol, além de desenrolarem-se outras histórias paralelas, como uma gravidez indesejada, uma pistola para garantir um casamento, cervejas para animar e diamantes dentro da barriga do padrinho, além da procura pela iguaria do peixe-frito para alimentar a todos. O humor é utilizado para tratar de forma séria os assuntos dos imigrantes como a precariedade das condições de alguns, além das dificuldades da legalização:

MÁRIO ROMBO

(Desesperado.)

Eu não acredito nisto… querem me matar do coração… primeiro é porque não há peixe frito… depois é que para conseguir um rádio tenho que trazer um morto e ainda por cima o rádio não funciona e o morto fica aqui a assistir o jogo…

MINA

Calma, pai…

MÁRIO ROMBO

E agora, mesmo estando na Tuga, a pagar imposto com 21 por cento mais a segurança social… a luz vai… e eu não posso ver o jogo da minha selecção… (Muito triste.) Mas eu fiz quê a Deus?!

Ondjaki consegue nos fazer rir e refletir, garantindo ao público leitor um texto bem cuidado, leve, mas longe de ser superficial e mostrando mais uma vez porque é cada vez um nome a ser levado em consideração dentro da literatura não só “palopiana” mas também mundial.

*Ondjaki nasceu em Luanda, prosador e poeta, co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda “Oxalá cresçam pitangas – histórias de Luanda” (2006). Licenciado em Sociologia, atualmente é um dos membros da União dos Escritores Angolanos, traduzido para diversas línguas, dono de uma obra já reconhecida e ganhadora de diversos prêmios entre eles, o Prémio José Saramago por “os transparentes” em 2013.

(http://www.canalsubversa.com/artigo/o-humor-e-o-assunto-serio-em-os-vivos-o-morto-e-o-peixe-frito-de-ondjaki/)

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